Ambar Lucid sempre habitou um jardim interior e foi dele que extraiu a matéria-prima para construir seu universo artístico. Ainda na infância, postava covers no YouTube. Aos 17, largou o ensino médio e se mandou para Los Angeles apenas com ambição na mala. No ano seguinte, reencontrou o pai, deportado para o México, experiência que deu origem ao documentário Llegaron Las Flores. Foi também nesse período que floresceu seu álbum de estreia, Garden of Lucid (2020), um território de descoberta onde a juventude ainda era sua principal ferramenta de criação.
A aclamação do projeto lhe rendeu contrato com gravadora e até participação especial na série Elite da Netflix. Agora, aos vinte e cinco, esse jardim ressurgiu, mas já não é o mesmo: suas rosas brotam de um solo encharcado de lágrimas. “Sinto que eu me tornei muito mais segura e desenvolvida como artista”, diz sobre a transição para El Jardín de Lágrimas, EP lançado ano passado (2025). “Ele veio de um lugar muito mais firme na minha própria identidade. Eu me tornei uma compositora melhor, mais intencional com as letras.”
O que antes eram sonhos febris de uma menina que gravava vídeos cantando em seu
quarto transfigurou-se em um espaço de luto e resiliência. Ironicamente, foi nessa
escavação ao fundo de si que a cantora encontrou sua voz mais autêntica. Já não se trata apenas de florescência, mas de catarse.
Para navegar por essa fase, Ambar buscou uma âncora fora dos estúdios. Ao decidir cursar Psicologia, transformou radicalmente sua relação com a arte. “Percebi como eu estava existindo em muitas ilusões porque estava na bolha da indústria”, revela. “Como artista jovem, as pessoas se beneficiavam da minha falta de consciência sobre como as coisas funcionavam de verdade. Acho que, quando você sabe menos sobre o mundo e seus mecanismos, fica mais fácil se conformar com o modo de pensar dos outros ou simplesmente se adaptar a ele.”
O estudo da mente humana não apenas a ensinou sobre relações interpessoais, como a fortaleceu contra as armadilhas do meio. “Isso me permitiu pensar por mim mesma, me deu a habilidade de entender que minhas próprias experiências, minha perspectiva, eram válidas. Mas também me ensinou que a realidade é muito mais complicada do que apenas um sentimento ou uma opinião. E me ensinou muito sobre as pessoas: que elas são complicadas e imperfeitas e vão te decepcionar. Isso faz parte da vida, é algo que acontece. Os humanos são imprevisíveis. Tornei-me psicologicamente livre porque não dependia mais da perspectiva dos outros.”
Mais do que respostas, a vida acadêmica lhe mostrou o que existe para além da razão: “Há um domínio da realidade que não conseguimos realmente explicar, e esse domínio se parece muito com a arte. Nós canalizamos uma fonte superior através da meditação. Isso me fez sentir mais conectada ao universo porque obtive mais clareza sobre como o mundo funciona, mas também sobre quantas coisas nós realmente não sabemos.” Essa consciência aguçada preparou Lucid para enfrentar o que ela chama de “os altos e baixos” da indústria. Quando Chappell Roan, em seu discurso no Grammy, falou sobre como o showbusiness a dilacerou antes do estrelato, Ambar sentiu que aquelas palavras eram um eco que ela conhecia muito bem.
“É muito real. Os artistas sacrificam muito da própria saúde mental para poder
entregar arte às pessoas. Eu me senti absolutamente destruída pela indústria, e acho fundamental falar sobre isso, mostrar o que acontece nos bastidores. Pois, enquanto esse assunto estiver sendo discutido, significa que há pessoas conscientes do problema e que podem ajudar os artistas que estão sofrendo. Porque, no fim das contas, estamos fornecendo entretenimento que traz luz para a vida das pessoas.”
Lucid define a fama como uma bênção e uma maldição. “Há muitos privilégios em ter sua arte apreciada, mas também há o lado complicado: quando sua arte atinge sucesso, não é mais só você, entram pessoas na sua equipe, aparece o público, que fala de volta, e psicologicamente são muitos elementos difíceis de processar, especialmente nos momentos baixos. Nos altos, ainda há questões complicadas, mas nos baixos, é quando os artistas mais precisam de apoio.”
Em sua trajetória, o amparo nem sempre veio. “Eu pessoalmente experimentei uma falta de apoio nos meus momentos baixos. Houve tantas vezes em que desejei que alguém entendesse o que eu estava passando.” A saída, para ela, foi o diálogo. “Quanto mais falei sobre minhas experiências, mais percebi que muitos outros artistas vivenciam os mesmos desafios. Ouvir outra pessoa falando sobre isso é reconfortante. Me fez sentir menos louca. Às vezes, quando você está passando por aquilo sozinha, sente que é a única, que foi deixada de lado. É um sentimento isolador. Mas ouvir que esses altos e baixos estão presentes para qualquer um na indústria mostra que não estamos sós. É realmente importante falar sobre os momentos difíceis para que possamos ajudar uns aos outros.”
Porém, se o mercado a fez sentir-se solitária, foi na riqueza de suas origens que a cantora encontrou um pertencimento inegociável. Crescer em Nova Jersey, com raízes dominicanas e mexicanas, concedeu-lhe uma percepção de mundo que a acompanha em cada nota. “Eu cresci cercada por diferentes culturas”, reflete. “Minha música acabou sendo uma mistura de tudo o que vivenciei. Cresci ouvindo muita música latina, muita bachata, merengue, salsa, rock latino.”
“Sou muito grata por, mesmo sendo americana de primeira geração, ter crescido cercada por coisas latinas: novelas, filmes, tudo o que minha mãe consumia, eu também consumia.” Sua arte é exatamente o som dessa geografia afetiva, e é nesse terreno fértil que emerge “La Apuesta”.
A faixa, que sampleia um bolero de 1971 de Gilberto Cruz, não veio de um planejamento meticuloso, mas de uma centelha de intuição compartilhada com seu amigo e colaborador Sebastián Torres. “Sinto que ele e eu somos muito alinhados espiritualmente. Eu cheguei no estúdio querendo escrever corridos tumbados, e ele disse: ‘E se a gente tentasse um bolero?’ Quando Sebastián puxou o sample, a conexão foi instantânea. Parecia uma viagem no tempo”, descreve. “Dá para sentir muito a qualidade daquela época, e foi muito louco, porque parecia que eu estava no presente mas também no tempo em que a música foi gravada.”
Entretanto, esse jardim multicultural não é cultivado sem espinhos. Com o tempo, ela percebeu que a indústria insiste em tratar “latino” como um gênero musical, e não como uma identidade. “No passado, eu meio que tentava ignorar isso”, admite. “Mas agora é algo muito mais sagrado e precioso para mim.” A virada ocorreu quando entendeu que, mesmo que evite o rótulo, o mundo já a enxerga como numa caixa. Longe de ser um fardo, essa percepção transformou-se numa ponte. “Agora, busco ser mais compreendida pela comunidade latina do que nunca porque minha música é bilíngue, e é importante para mim entender a profundidade da minha identidade.”
Enquanto o boom global da música sul-americana impulsiona o reggaeton e o pop ao topo da Billboard, Lucid observa, com olhar atento, outra corrente igualmente essencial: a da nova geração de artistas que recusa os moldes do show business. Nomes como Omar Apollo, Cuco, Milo J e Catriel e Paco Amoroso representam uma inflexão histórica, impulsionada pelo streaming e pela internet, que ampliaram o repertório de referências e geraram uma diversidade de estímulos, sonoros, líricos, vocais e visuais. “Hoje há muito mais liberdade na autoexpressão. Sinto que os artistas podem definir seus próprios sons sem serem enquadrados”, reflete. Para ela, essa autonomia não é apenas uma evolução estética ou mercadológica, é, sobretudo, uma liberdade espiritual. A prova de que o fenômeno latino contemporâneo já não cabe mais em uma única fórmula, mas pulsa em muitos timbres, muitas línguas e muitas possibilidades.
Diante de tanta imprevisibilidade, a artista encontra no Tarô e na astrologia práticas
sagradas de orientação. “Uso o tarô para ganhar clareza em respostas”, conta, ao
mesmo tempo em que lembra ter feito uma tiragem logo antes de nossa entrevista sobre se mudar para o México, da qual a Estrela emergiu em primeiro lugar. Para ela, o baralho é um diálogo com o desconhecido, um mapa que ilumina encruzilhadas, guiando-a até seu novo trabalho, The Art of Letting Go, cuja faixa final concluiu há poucos dias, em terras mexicanas.
Quando perguntada sobre quais três cartas melhor representariam a energia do álbum, sua resposta é cirúrgica: “Três de Espadas, a Torre e a Estrela”. A sequência desenha com precisão sua travessia recente, do golpe do amor desfeito ao desmoronar das certezas, até o lampejo de esperança que teima em renascer. “É um projeto muito triste”, confessa, “mas adoro escrever músicas tristes.” O título adquiriu um peso quase profético, como ela mesma pontua: “Este projeto me guiou através de um momento muito difícil da minha vida. Quer dizer, ele se chama ‘A Arte de Deixar Ir’, e sinto que quase previ o que iria acontecer na minha vida quando criei o título. Eu criei antes de passar por um término, antes de ser dispensada pela gravadora, e então essas coisas aconteceram e tudo foi tão alinhado.”
Ambar trabalha nesse disco há anos e descreve o resultado como uma “captura de tela de uma morte do ego”, a expressão crua de uma rendição forçada à constatação de que, quando julgamos ter a vida resolvida, ela nos arrasta para a direção oposta à que imaginávamos. “É muito mental, estruturado de forma estranha, mas veio de um lugar muito verdadeiro.” Para ela, a discografia é, acima de tudo, “uma expressão sobre aceitar que a vida nos leva para onde quer que ela queira nos levar.”
Convidada a endereçar uma carta à sua versão futura, daqui a uma década, a jovem
cantora faz sua prece íntima: “Meu futuro eu, espero que ela se lembre da essência de quem é, que não importa o que passe, ainda seja apaixonada por fazer arte. Que recorde o quão difícil foi este período, para que, quando as coisas melhorarem, possa apreciar cada alto e baixo que a trouxe até onde estiver. E que nunca se esqueça de demonstrar amor, de valorizar quem a apoia e de nunca perder a luz que carrega dentro de si, para que continue compartilhando sua essência com o mundo.”
Porque, no fim, Ambar Carolina Crúz Rodriguez aprendeu que as culturas que a formaram, as dores que a marcaram e as ilusões que se desfizeram — assim como as certezas que ruíram — são todas matéria-prima. E ela, que decifrou a mente para desvendar miragens, que carrega um jardim inteiro numa só voz, que leu nas cartas o que o coração já sabia, encontrou uma resposta que nenhum livro ou baralho contém: a arte não é domar o destino, mas dançar com ele, mesmo quando a trilha sonora é triste.
Por Luana Murakami
