Era uma das colaborações mais aguardadas do ano, Charli xcx uniu forças com o cineasta David Cronenberg em “No One Lasts Forever”, a faixa de encerramento de seu novo álbum Music, Fashion, Film, que estreou em primeiro lugar no Reino Unido. No entanto, para os fãs que compraram na pré-venda o que foi anunciado como o álbum “completo” em vinil, uma surpresa desagradável os aguardava. A música não contém a participação falada de David Cronenberg, que é uma reflexão sobre arte, morte e eternidade, disponível nas plataformas de streaming como Spotify e Apple Music. As informações são The Guardian.
A colaboração, elogiada pela Variety como “o coração do que o álbum”, aparentemente perdeu o prazo de entrega para a fabricação do vinil. “Estávamos em um ponto em que precisávamos entregar o áudio do vinil [e] não conseguimos a parte de David a tempo”, disse Charli ao podcast Tape Notes, acrescentando: “Na verdade, existe uma versão diferente da música no vinil, sobre a qual ainda não falamos direito”.
Animesh Khare, um fã de 27 anos de Paris, esteve entre os decepcionados com a decisão. “Saber que a versão em vinil não é o disco completo com certeza me faz hesitar em comprá-lo”, diz ele.
“Artistas e gravadoras devem aos fãs a comunicação prévia dessas diferenças para que as pessoas possam tomar decisões informadas antes de gastar dinheiro com mídia física. É apenas uma questão de respeito e transparência”, completa.
Charli xcx não é a única a cometer essa falha. Fãs que compraram na pré-venda o terceiro álbum de Olivia Rodrigo, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, notaram cerca de seis faixas nas edições em vinil do álbum com a ausência de pontes, encerramentos e outros trechos musicais.
Enquanto isso, outros ouvintes descobriram que as cópias em vinil do This Album May Contain Hope, segundo álbum de Raye, não estava com a mixagem final. Em resposta, Raye disse: “Eu realmente peço desculpas… as versões digitais de algumas dessas músicas, algumas são bem diferentes. E vocês só precisam aceitar isso, porque eu fiz o meu melhor”.
Essa pode ser a pior tendência do pop esse ano
Fãs que pagam os preços mais altos na pré-venda daquilo que é a edição mais desejada, colecionável ou elaborada de um álbum estão, em vez disso, recebendo versões incompletas ou inacabadas das músicas.
No caso de Raye, a cantora tentou mostrar um lado positivo, brincando com o radialista Zane Lowe que o vinil quase finalizado poderia se tornar um item de colecionador, mas os fãs não viram graça na situação. “É razoável achar que, ao comprar um disco, que se trata da gravação final”, escreveu uma pessoa no Reddit, em um comentário destacado entre dezenas publicados na rede social. “Eu apoio a Charli, amo o trabalho dela como artista, mas essa propaganda enganosa não é legal”, finalizou.
raye turning to the camera to apologise about the vinyls getting pressed before the final mix, SHE'S SOJFJDJDJD pic.twitter.com/NwxamPHK6E
— MⱯRGⱯUX 🦇 (@LUCIDNIGHTM4RE) April 1, 2026
Em outro caso, a primeira prensagem de Hurry Up Tomorrow, do The Weeknd, continha apenas 11 das 22 faixas da versão digital, além de apresentar mixagens mais curtas ou anteriores, transições diferentes e a ausência de participações especiais. No caso deste álbum, houve o lançamento em vinil duplo da “edição completa”.
As primeiras prensagens em vinil de Cowboy Carter, de Beyoncé, não tinham cinco músicas que foram lançadas na versão digital, o que deixou os fãs desapontados. A cantora não respondeu aos pedidos de comentário na época. Outros álbuns, como Pink Friday 2, de Nicki Minaj, e Tha Carter VI, de Lil Wayne, são prensados em vinil em edições muito mais curtas do que suas versões digitais, provavelmente para evitar edições custosas em vinil duplo ou triplo.
Prazo para entrega das músicas para as fábricas de vinil e para o streaming
Outro motivo é que as fábricas de vinil precisam receber os masters de áudio e as artes conceituais pelo menos seis semanas antes da data de lançamento prevista, sendo que embalagens elaboradas ou múltiplas variações exigem tempo adicional.
“Quanto mais complicado for o vinil, mais tempo levará para ser fabricado, especialmente se houver caixas comemorativas envolvidas”, explica Ben Savage, gerente da loja de discos e gravadora independente Skeleton Records, sediada em Birkenhead, ao The Guardian. O Spotify, em contrapartida, precisa de apenas cinco dias úteis para processar os arquivos digitais.
No caso de Olivia Rodrigo, o álbum de sucesso lançado em junho foi disponibilizado em pelo menos doze versões alternativas do vinil, incluindo cópias autografadas, picture discs (discos impressos com imagens), edições com arte lenticular, capas alternativas, edições exclusivas para determinadas lojas, edições com elementos em pop-up e um verdadeiro arco-íris de prensagens coloridas.
Contudo, todas trazem versões mais curtas de músicas como “honeybee”, “maggots for brains” e “the cure”, que está sem o instrumental do violino no encerramento. Os cortes são tão grandes que os fãs a princípio presumiram que suas cópias haviam sido prensadas com defeito. A gravadora e os assessores de imprensa da artista não responderam aos pedidos de esclarecimento, mas a cantora deixou escapar que a faixa de encerramento do álbum, “cigarette smoke”, foi escrita apenas uma semana antes de ela ter que “entregar tudo para a fabricação do vinil”.
Por que os vinis estão saindo diferentes do streaming
A verdade é que lançar um vinil hoje nem sempre significa prensar a versão final de um álbum.
Muitas vezes, os artistas precisam entregar uma versão das músicas para a fábrica meses antes do lançamento, enquanto continuam fazendo ajustes para a edição digital. Se esse é o novo padrão da indústria, a dúvida é: os fãs não deveriam ser avisados de que o vinil pode ser diferente do streaming?
Um fã de Olivia Rodrigo contou que a loja oficial da cantora recusou seu pedido de reembolso, afirmando apenas que o vinil “foi recebido conforme o pretendido”. Diferentemente dos raros erros de fabricação, que podem se tornar itens valiosos por existirem em poucas unidades, essas versões incompletas são produzidas de propósito e em grande quantidade. Embora possam interessar a colecionadores, dificilmente terão o mesmo valor de um verdadeiro erro de prensagem.
O grande número de edições alternativas e o medo de perder um lançamento ajudaram as vendas de vinil no Reino Unido a chegarem a 7,6 milhões de cópias no ano passado, segundo a BPI. O volume representa um crescimento de 13,3% em relação ao ano anterior e marca o 18º ano consecutivo de alta.
O crescimento do mercado de vinil não acontece apenas no Reino Unido. No Brasil, o formato também vive um novo momento, impulsionado principalmente pelo público mais jovem. Segundo dados da Recording Industry Association of America (RIAA), 46,8 milhões de LPs foram vendidos em todo o mundo em 2025, enquanto o mercado brasileiro movimentou cerca de R$ 4 bilhões.
Ainda assim, Ben Savage acredita que as gravadoras estão exagerando. “Isso é explorar os fãs. Temos medo de que isso desgaste a relação com os consumidores e faça esse mercado perder força”, finalizou.
