Depois de uma fase marcada por experimentações, Miley Cyrus retorna com Bass Persuades, mas sem deixar de lado o pop e as pistas de dança. O álbum mistura rock alternativo, electropop e dance music em uma tentativa de reunir diferentes versões da cantora em um mesmo projeto. O resultado é um trabalho bem produzido e maduro, embora menos disposto a romper com aquilo que Miley já mostrou saber fazer.
A faixa que dá nome ao disco foi a primeira pista dessa nova era e criou entre os fãs a expectativa de um álbum essencialmente eletropop, com muitas faixas dançantes. O disco completo, porém, segue por um caminho mais amplo. Há espaço para músicas voltadas à pista, mas também para baladas e momentos que recuperam elementos do rock presentes em trabalhos anteriores.
Segundo Miley contou à Apple Music, o projeto começou a ganhar forma depois da conclusão de Something Beautiful. A cantora também descartou a ideia de que o álbum seria apenas uma reunião de músicas descartadas de diferentes períodos. A proposta, na verdade, parece ser revisitar essas fases e transformá-las em uma identidade única.
Visualmente, a nova era encontra uma de suas maiores forças. A estética assinada por Mert Atlas traz uma abordagem sofisticada ao projeto, enquanto o videoclipe de “Bass Persuades” aposta em referências a nomes como Britney Spears e Madonna. O resultado é um trabalho que reforça a presença de Miley como uma das grandes figuras do pop e mostra uma cantora bastante consciente da própria imagem.
Musicalmente, alguns momentos conseguem escapar da sensação de segurança. “Different Religion” é um dos principais exemplos, com o baixo conduzindo a produção e a participação de Model/Actriz acrescentando uma camada mais experimental. Já “Innocent Ways” recupera elementos que lembram “River”, de Endless Summer Vacation, mas encontra sua própria identidade.
“Let’s Get Married”, segundo single do álbum, representa uma faceta mais conhecida de Miley, combinando pop e vulnerabilidade. “Aftermath” e “Snow” também aparecem entre os momentos que ajudam a sustentar a proposta do disco.
O problema está justamente na comparação com Something Beautiful. Depois de um trabalho mais conceitual e interessado no rock industrial e no art pop, Bass Persuades soa consideravelmente mais comercial. Em vários momentos, o álbum se aproxima de uma continuação de Endless Summer Vacation, preferindo caminhos familiares a uma nova ruptura.

Isso fica ainda mais evidente porque as faixas que mais se aproximam do rock industrial estão entre as que apresentam maior personalidade. “Different Religion” e “Innocent Ways” mostram uma Miley disposta a explorar possibilidades, mas acabam funcionando mais como exceções do que como regra.
Também existe uma certa distância entre a expectativa criada pela faixa-título e o álbum que chegou ao público. Bass Persuades tem músicas que funcionam na pista, mas não é um disco inteiramente dançante. As baladas e faixas mais lentas mudam constantemente o ritmo e fazem com que a experiência passe por diferentes estados.
No fim, Miley entrega um álbum pop competente, bem produzido e com bons momentos, mas menos inovador do que poderia ser. Ela continua dominando o rock, o pop, as baladas e a música dançante, porém o disco raramente leva essa mistura para um território realmente inesperado. “Bass Persuades” não representa necessariamente um passo para trás. Ele apenas parece mais interessado em consolidar uma linguagem que a cantora já conhece do que em encontrar uma nova.
