Para Budah, chegar ao Rock in Rio é mais do que ocupar um dos maiores palcos do mundo. É também olhar para a própria trajetória e perceber o tamanho do caminho percorrido. Nascida no Espírito Santo, a cantora acompanhou o festival durante anos pela televisão e chegou a imaginar que aquele universo estava distante de sua realidade.
Agora, a artista se prepara para viver o outro lado dessa história: subir ao palco e dividir a programação com nomes que admira. A estreia acontece em um momento especialmente importante de sua carreira. Com quase dez anos de trajetória, Budah vive uma nova fase com o álbum Frequência Lunar, projeto que também marca uma transformação em sua performance e na maneira como constrói seus shows.
Em entrevista, a cantora falou sobre a emoção de chegar ao Rock in Rio, a mudança para São Paulo, sua evolução artística, os planos antes dos 30 anos e deixou no ar até um possível convidado especial para sua apresentação.
O que passou pela sua cabeça quando você percebeu que estava prestes a estrear no Rock in Rio, um dos maiores festivais do mundo?
Acho que todo artista anseia por esse momento de conseguir apresentar seu trabalho em um espaço tão gigantesco e importante. Quando a gente consegue ocupar esse espaço, sente que está se consolidando.
Falando até de uma perspectiva pessoal, como Brenda, eu me sinto muito realizada por estar vivendo esse momento e por ver a Budah ocupando esse espaço.
Eu tento separar um pouco as coisas, porque fico pensando em toda a minha trajetória. Eu nasci no Espírito Santo, um lugar que está totalmente fora do eixo musical e onde é muito difícil crescer artisticamente. Acompanho o Rock in Rio há muitos anos e assistia ao festival de casa. Para mim, era surreal imaginar que um dia eu estaria ali, principalmente considerando todo o meu histórico e o fato de que, na adolescência, muitas vezes eu não tinha dinheiro para ir aos shows dos meus artistas internacionais favoritos.

Você construiu sua carreira de forma muito consistente e conquistou um público fiel. Olhando para trás, em que momento percebeu que a Budah havia deixado de ser uma promessa para se tornar uma realidade na música?
Acho que essa virada de chave aconteceu principalmente quando me mudei para São Paulo. Eu já tinha uma carreira e havia realizado alguns trabalhos e parcerias, inclusive com artistas como Pabllo Vittar e outros nomes, além de já ter feito o Colors. Durante boa parte desse período, porém, fui uma artista independente.
Eu nem sabia exatamente que estava construindo uma relação tão forte com o meu público. Eu simplesmente era eu mesma. Gravava vídeos, fazia stories, covers e outras coisas que gostava de fazer de maneira orgânica. Foi assim que criei uma base de pessoas que passaram a acompanhar e gostar muito do meu trabalho.
Depois, assinei com a Universal, e isso trouxe outro peso. Quando você entra em uma gravadora, passa a precisar se preocupar com uma série de questões diferentes. Ao mesmo tempo, fui morar em São Paulo e precisei montar uma nova equipe.
Eu queria muito ter um balé porque via os espetáculos de outras artistas no palco e pensava que precisava fazer aquilo também. Foi quando comecei a desenvolver uma mentalidade mais empresarial em relação à minha imagem e à minha carreira.
Então, sinto que essa virada de chave aconteceu quando entrei para a gravadora e me mudei para São Paulo, praticamente ao mesmo tempo.
Você veio do Espírito Santo, um lugar fora do eixo tradicional da música, e encontrou em São Paulo um espaço maior para desenvolver seu trabalho. Como essa mudança impactou sua carreira?
O Espírito Santo é um lugar muito pequeno para determinados segmentos. Existe uma dificuldade maior de as pessoas compreenderem e consumirem trabalhos autorais, principalmente no rap, que é um gênero mais nichado.
Em São Paulo, senti que existia um espaço maior para mim. É uma cidade onde pode haver vários shows de artistas diferentes do rap no mesmo dia e todos podem estar lotados. Existe uma cultura muito forte de ouvir rap, com artistas como Racionais, além de uma cena hip-hop e uma cultura alternativa muito fortes.
Acho muito interessante uma cidade que funciona dessa maneira, embora também seja muito intensa. São muitas oportunidades e muitas possibilidades. Realmente mudou muito a minha vida quando fui para São Paulo.

Falando sobre o álbum Frequência Lunar, o show que você levará ao Rock in Rio faz parte dessa nova turnê? O público pode esperar muitas músicas desse projeto?
Está sendo muito legal. Estou indo ao estúdio praticamente todos os dias para montar o show e estou sendo muito detalhista nesse processo.
Sinto que, em comparação com Púrpura, estou vivendo uma experiência muito diferente. Eu também sou outra pessoa. Estou mais madura e sinto que minha performance no palco mudou. Hoje tenho mais segurança com o balé e com outras pessoas dividindo o palco comigo.
Minha equipe também é fixa há algum tempo. Somos todos amigos e temos uma sintonia muito boa, e isso faz muita diferença no show. Quem está assistindo consegue perceber que as pessoas estão realmente se divertindo no palco.
A estreia desse show acontece no Cine Joia, no dia 22, e, a partir daí, começamos essa nova fase de Frequência Lunar. Mas não tem como deixar de cantar as outras músicas. Púrpura também estará presente, porque existem músicas que são verdadeiros hinos e que mudaram a minha vida. Se eu não cantasse, provavelmente meus fãs me matariam.
Então, haverá uma mistura dos dois mundos. Estou tentando fazer com que as músicas de Púrpura entrem na atmosfera de Frequência Lunar. Também estamos trabalhando em remixes de músicas mais antigas para fazer essa transição para as novas.
O show está muito para cima, tem uma atmosfera bastante noturna e muito ligada a uma estética de clube. É difícil ficar parado.
Também existe um momento em que canto as músicas mais R&B, que são mais lentas, usando pedestal e tudo mais. Mesmo assim, a energia não cai. Conseguimos unir esses dois mundos, o R&B e o rap mais pesado que veio com Frequência Lunar.
Desde os primeiros lançamentos até Frequência Lunar, sua música parece carregar muita vulnerabilidade, força e identidade. Como você enxerga essa evolução como artista?
É uma mudança muito grande. Se você voltar ao YouTube e assistir ao meu primeiro trabalho ou aos primeiros videoclipes, vai perceber que sou outra pessoa. Eu era muito tímida.
Acho que todo o contexto social que vivi na adolescência também influenciou muito. Eu me enxergava como alguém que nunca era escolhida, que precisava pensar: “Não posso fazer isso porque essa pessoa provavelmente não vai gostar”.
Com o tempo, a idade foi chegando e veio também a autoconfiança. Você muda, corta o cabelo, começa a se sentir bonita e passa a ter mais segurança.
Eu sinto que nasci com o dom. Sei cantar e, quando abro a boca, algumas coisas técnicas simplesmente acontecem de forma automática. Mas, além do dom, é preciso praticar. Minha escrita, por exemplo, melhorou muito porque eu escrevia músicas independentemente de elas serem lançadas ou não. Eu estava sempre praticando.
Acho que isso fez muita diferença. São quase dez anos de carreira. Não tem como continuar sendo a mesma pessoa. Eu comecei com 19 anos e agora estou chegando aos 30. Literalmente, virei adulta fazendo música.
Acho que essa transformação pode ser percebida na minha história e na minha discografia.
Você já conquistou muitas coisas, como contrato com uma gravadora, turnês e agora o Rock in Rio. Existe alguma meta que gostaria de alcançar antes dos 30 anos?
Antes dos 30, acho que é difícil, mas quero muito ter a minha própria casa, porque ainda não tenho. Também quero muito deixar os meus pais confortáveis.
Sou uma pessoa feliz com coisas simples. Quero comprar uma fazenda para a minha mãe e um carro melhor para o meu pai. Acho que, quando conseguir conquistar minhas próprias coisas e, ao mesmo tempo, proporcionar conforto para eles, vou ficar em paz.
Luto todos os dias por isso. Depois, tudo o que vier será muito bem-vindo.
Quero poder comprar minha casa, comprar meu carro, continuar fazendo música, ser respeitada e ter uma carreira longa e bonita.
No fundo, só quero viver bem e com conforto, sem precisar passar por dificuldades ou ficar o tempo todo preocupada com dinheiro e investimentos. Quero conseguir descansar a cabeça e ficar tranquila. Depois disso, tudo o que vier será um presente.
Seu novo projeto reúne parcerias muito interessantes. Podemos esperar alguma participação especial no show do Rock in Rio?
Não sei se posso falar isso. Acho que não posso dar esse spoiler. Só posso dizer que quem estiver lá vai descobrir. É isso, deixei a dica [risos]. De qualquer forma, o show está muito legal. Conseguimos entregar uma experiência realmente especial, independentemente de haver ou não uma participação. A energia não depende disso. As meninas estarão ali, e a experiência continuará muito boa de qualquer maneira.
Além da sua própria apresentação, quais artistas você está mais ansiosa para assistir no Rock in Rio?
Eu quero muito ver o Black Eyed Peas. Não tem noção do quanto. Eu já assisti ao show do Ne-Yo e foi maravilhoso. Parecia que eu tinha voltado à adolescência. Foi muito especial. Mas estou realmente muito ansiosa para ver o Black Eyed Peas. Eu sei cantar praticamente o show inteiro, do começo ao fim. Vai ser muito legal.
É muito especial poder viver esses momentos agora. Quando eu era adolescente, via as pessoas indo aos shows e pensava que não tinha dinheiro para viver aquilo. Agora, poder estar ali na frente do palco é algo que me deixa muito emocionada.
