Depois de mais de uma década de carreira, Romero Ferro chega a uma nova etapa artística com “Ouro”, álbum que encerra a trilogia iniciada com seus trabalhos anteriores. Em entrevista ao Conexão POP, o cantor falou sobre amadurecimento, suas raízes no Agreste Pernambucano, sexualidade, família e a liberdade de voltar a fazer música sem a mesma pressão de outros momentos da carreira.
Natural de Garanhuns, Romero passou parte da infância também em Bom Conselho antes de se mudar para Recife e, posteriormente, viver por seis anos no Rio de Janeiro. Foi justamente esse deslocamento que o fez questionar o que queria construir como artista. Segundo ele, a busca por pertencimento, especialmente enquanto pessoa LGBT, acabou levando a uma reconexão com sua própria história.
“Eu me perguntei: quem é esse Romero de fato? Será que esse Romero quer fazer mais do mesmo? Ou será que esse Romero tem uma coisa muito sua para contar?”, relembra.
A resposta veio com “Ouro”, projeto que o cantor define como uma mistura de diferentes versões de si mesmo, mas com uma maturidade que ainda não havia explorado em um álbum. O processo também o levou de volta aos lugares onde cresceu, que acabaram servindo de cenário para os materiais visuais do disco.
Entre as faixas mais pessoais está “Meio do Caminho”, que aproxima referências de Dominguinhos de lembranças da infância e do processo de descoberta da sexualidade. A música também carrega uma dimensão familiar importante para Romero, especialmente pela relação com o pai, que enfrenta uma doença degenerativa sem cura.
O cantor decidiu incluir na faixa um áudio antigo em que o pai dizia “eu te amo”. A lembrança ganhou ainda mais significado porque, anos antes, Romero havia enfrentado dificuldades para falar sobre sua sexualidade dentro de casa. Quando finalmente contou ao pai, recebeu uma resposta que não esperava: “Eu amo você, meu filho. Do jeito que você é. Da forma que você foi feliz. Eu vou estar com você.”
A música acabou se tornando uma maneira de reunir essas diferentes memórias em uma mesma história, incluindo a influência de Dominguinhos e a relação de Romero com sua identidade. O artista reconhece que a faixa pode provocar diferentes reações, mas considera que ela precisava fazer parte do álbum.
Outro aspecto que diferencia “Ouro” é a preocupação com acessibilidade, pensada desde a concepção do projeto. Romero trabalha há 13 anos com Maurício Schinelli, seu sócio e uma pessoa com deficiência, e conta que a dupla já vinha discutindo maneiras de tornar os trabalhos mais inclusivos.
Para o álbum, eles trouxeram Nayara, intérprete de Libras surda, para participar do processo de consultoria. A experiência pessoal de Romero também ganhou peso nessa decisão, já que seu pai passou a ser uma pessoa com deficiência em decorrência da doença.
A proposta é que a acessibilidade não apareça apenas como uma adaptação posterior, mas como parte da própria linguagem do projeto. Os recursos específicos serão apresentados após o lançamento do álbum, junto com os visuais de cada faixa.

Romero também chama atenção para a falta de acessibilidade em diferentes espaços culturais e defende que a indústria passe a pensar nesses públicos desde o início da criação. Para ele, “Ouro” é uma oportunidade de experimentar novas formas de fazer com que mais pessoas possam consumir sua arte.
