O interesse por vinis, CDs e fitas cassete entre consumidores de música em São Paulo e outros mercados tem crescido. Os formatos físicos passaram a representar uma alternativa para pessoas que buscam uma experiência mais próxima dos álbuns, além das recomendações das plataformas digitais. As informações são da Folha de São Paulo.
Após duas décadas de crescimento dos serviços de streaming, que reduziram a presença dos produtos físicos no consumo musical, os formatos tradicionais voltaram a conquistar espaço. O movimento inclui principalmente os discos de vinil, mas também envolve CDs e fitas cassete.
Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) indicam que as vendas de mídias físicas cresceram 13,7% no último ano. O resultado mantém uma sequência de expansão do segmento, mesmo com o streaming concentrando a maior parte da receita mundial da música gravada.
Nos Estados Unidos, o vinil superou US$ 1 bilhão em faturamento anual pela primeira vez desde a década de 1980. Apesar da valorização recente, o mercado atual ainda representa uma parcela menor em comparação ao auge comercial do formato.
Vinil conquista consumidores de diferentes gerações
O perfil de quem compra vinis mudou nos últimos anos. O formato deixou de ser associado apenas a colecionadores tradicionais e passou a alcançar públicos mais variados.
Rafael Félix, diretor comercial da Universal Music Brasil, explica que o vinil ampliou sua presença no mercado. “O vinil deixou de ser um produto de nicho e passou a atrair consumidores de diferentes gerações”, afirma o executivo.
A Universal Music Brasil lançou aproximadamente 500 títulos em vinil no último ano e pretende manter uma quantidade semelhante de lançamentos. A gravadora também continua trabalhando com CDs, fitas cassete, DVDs e Blu-rays.
O crescimento atual não representa uma volta ao período em que os discos eram a principal forma de consumo musical. Em 1983, os Estados Unidos venderam mais de 200 milhões de unidades, volume muito superior ao mercado atual.
Edições especiais estimulam compras de fãs
As gravadoras passaram a explorar versões exclusivas para aumentar o interesse dos consumidores. Capas alternativas, cores diferentes de vinil, caixas especiais e edições limitadas passaram a fazer parte da estratégia de lançamento.
O álbum “The Life of a Showgirl”, de Taylor Swift, recebeu 18 versões diferentes entre CDs, vinis e fitas cassete. Outros artistas, como Billie Eilish, Olivia Dean, Lady Gaga e Kendrick Lamar, também adotaram formatos especiais para incentivar fãs a adquirir múltiplas versões de um mesmo álbum.
A produção física também passou a influenciar o processo criativo. Alguns trabalhos chegaram às lojas com diferenças em relação às versões disponíveis nas plataformas digitais, incluindo mudanças em faixas e mixagens.
Fitas cassete retornam como objetos de coleção
A fita cassete voltou a despertar interesse entre consumidores que valorizam formatos físicos. No Reino Unido, as vendas alcançaram em 2022 o maior nível desde 2003, segundo a Indústria Fonográfica Britânica.
Nos Estados Unidos, o formato também apresentou crescimento. O cantor PS Goner lançou o álbum “There’s an Atm Inside” totalmente em cassete.
O interesse pelas fitas não está relacionado apenas à reprodução sonora. O valor do objeto e a sensação de possuir uma versão física de um trabalho musical passaram a influenciar a procura.
Lojas de discos recuperam papel de curadoria
O crescimento das mídias físicas também está ligado ao desejo por recomendações feitas por pessoas. Márcio Martinez, sócio da Collectivinyl, coletivo de venda de discos no centro de São Paulo, destaca essa mudança.
“Hoje a pessoa tem 30 milhões de músicas disponíveis, mas às vezes não ouve nenhuma”, afirma Márcio Martinez.
As lojas especializadas funcionam como espaços de descoberta, nos quais vendedores e DJs apresentam novos artistas de acordo com os gostos dos clientes.
Plataformas digitais mudam forma de descobrir artistas
Glenn McDonald, ex-engenheiro responsável pelos sistemas de recomendação do Spotify, aponta que a discussão sobre streaming envolve o controle da experiência musical. “Você deixa de ser um fã de música e se torna um consumidor de conteúdo”, afirma Glenn McDonald.
Antes da popularização dos atuais serviços digitais, redes como o MySpace ajudaram artistas independentes a alcançar novos públicos por meio de descobertas menos previsíveis.
O armazenamento digital também trouxe questionamentos sobre preservação. Arquivos musicais disponíveis online dependem de sistemas tecnológicos e podem enfrentar desafios relacionados à manutenção de grandes acervos.
Jovens impulsionam novo ciclo das mídias físicas
Os consumidores mais jovens passaram a participar com maior frequência desse mercado. A Shinigami Records, especializada em CDs de rock e metal, percebe aumento da procura por parte desse público.
Willian Sakamoto, fundador da loja, destaca essa mudança no comportamento dos consumidores. “mas existe um crescimento do público jovem”, afirma o empresário.
Segundo Sakamoto, a pandemia contribuiu para fortalecer o interesse por produtos físicos, já que muitos consumidores passaram a buscar novas formas de entretenimento dentro de casa.
Veridiana Lima, diretora comercial da Vinil Brasil, empresa responsável pela prensagem de cerca de 120 mil discos por ano no país, avalia que a ideia de retorno simplifica o cenário atual.
“O vinil nunca deixou de ser fabricado”, diz Veridiana Lima. A executiva resume a relação entre música e produto físico ao explicar que “Se a música é intangível, o disco faz dela tangível.”, afirma a diretora comercial.
