O valor dos ingressos para shows internacionais aumentou de forma expressiva no Brasil e em outros países nos últimos anos, tornando a experiência de acompanhar artistas estrangeiros cada vez mais difícil. A alta chamou atenção após a divulgação dos preços de apresentações de Harry Styles no país, com cifras bem acima das praticadas em turnês anteriores. As informações são do g1 e da Billboard.
A reação do público nas redes sociais expôs frustração e dúvidas sobre as razões dessa escalada. A percepção de que a música ao vivo ficou mais cara não se limita ao mercado brasileiro e reflete transformações estruturais da indústria do entretenimento.
Fatores que explicam a alta dos ingressos de shows
Especialistas do setor de grandes eventos apontam que a inflação global influenciou os custos, mas não apenas isso. Profissionais ouvidos pelo g1 indicam que artistas passaram a depender mais das apresentações ao vivo como principal fonte de renda, já que plataformas de streaming não sustentam carreiras de grande porte.
Outro ponto citado envolve o aumento da complexidade das turnês
Produções atuais contam com estruturas maiores de luz, som, vídeo e efeitos visuais, o que eleva gastos com transporte, montagem e equipes técnicas. Além disso, passagens aéreas, hospedagem, salários e logística ficaram mais caros em todo o mundo.
Comparação entre turnês evidencia o impacto
Em 2022, a pista inteira de um show de Harry Styles custava R$ 358 sem taxas. Em 2026, o mesmo setor passou a custar cerca de R$ 700. A inflação acumulada no período ficou entre 20% e 25%, índice bem inferior ao reajuste aplicado nos ingressos.

Shows do Iron Maiden em São Paulo também apresentaram aumento médio de aproximadamente 49% entre 2022 e 2026, valor que supera em muito a variação inflacionária do período.
O mercado brasileiro também possui particularidades. A legislação da meia-entrada reduz a arrecadação por ingresso vendido, o que leva produtores a elevar o preço da inteira para equilibrar as contas. A carga tributária representa outro fator relevante, já que impostos incidem sobre o valor bruto do cachê pago aos artistas, diferentemente de países europeus onde a tributação recai sobre o lucro líquido.
“Então, para trazer um artista, é preciso que exista um valor mínimo que justifique esses custos. E, para chegar a esse valor, é necessário cobrar um preço médio de ingresso relativamente alto — levando em consideração, ainda, a questão da meia-entrada”, explica o entrevistado.
Além disso, o consumidor brasileiro arca com diversas taxas adicionais, como serviço, processamento e administração, que podem elevar o preço final em até 30%. O Procon-SP informou que “desde 2023, já aplicou 3 multas contra a Q2 Ingressos, a Eventim Brasil e a T4F Entretenimento e neste momento possui uma investigação em curso sobre a cobrança indevida de taxas.”
Pressão sobre os preços não se restringe ao Brasil
Em países como Estados Unidos e Reino Unido, práticas como o preço dinâmico fazem os valores variarem conforme a demanda, situação que provocou forte reação de fãs em turnês recentes.
“Eu sempre digo para todo mundo: antes de chorar, olha quanto estão pagando os outros fãs dos Estados Unidos, que são realmente o mercado mais caro. É onde os artistas fazem a festa, onde eles vão mais ganhar, vai ser nos EUA. Menos impostos, mais mercado, cobra-se mais caro, tem melhor infraestrutura para receber os shows”, afirma o produtor ouvido pelo g1.
Empresas de venda de ingressos também se tornaram alvo de críticas
A Ticketmaster enfrenta processos e acusações de preços abusivos, taxas enganosas e concentração de mercado. O modelo atual transfere ao público custos que antes ficavam a cargo das casas de espetáculo.
Até artistas já demonstraram insatisfação com esse sistema. Taylor Swift, Pearl Jam, Robert Smith, e ruce Springsteen já se posicionaram contra práticas das ticketerias, mas mudanças concretas seguem limitadas.
Em novembro de 2025, Olivia Dean usou as redes sociais para responsabilizar Ticketmaster, Live Nation e AEG Presents pelos problemas enfrentados pelo público na compra de ingressos e condenou a revenda com valores elevados.
“Vocês estão oferecendo um serviço repugnante. Os preços nos quais vocês estão permitindo que os ingressos sejam revendidos são desprezíveis e completamente contra a nossa vontade. A música ao vivo deveria ser acessível e ter preços justos…”

A declaração claramente mostra o desconforto de parte da classe artística com práticas que afastam fãs e encarecem o acesso à música ao vivo.
Após a repercussão, a Ticketmaster respondeu com uma concessão pouco comum ao anunciar que irá limitar a revenda futura de ingressos da turnê de Olivia Dean ao valor original e iniciar o reembolso de fãs que pagaram acima desse preço em sua plataforma.
“Nós apoiamos a capacidade dos artistas de definir os termos de como seus ingressos são vendidos e revendidos. Olivia Dean, vamos limitar os preços de revenda em nosso site ao valor original e esperamos que outros sites de revenda sigam o exemplo”, afirmou a empresa.
Mais tarde, o CEO da Live Nation Entertainment, Michael Rapino, também se manifestou publicamente sobre o tema. “Compartilhamos o desejo de Olivia de manter a música ao vivo acessível e garantir que os fãs tenham o melhor acesso possível a ingressos com preços justos. Embora não possamos exigir que outros mercados respeitem as preferências de revenda dos artistas, ecoamos o chamado de Olivia para ‘fazer melhor’ e tomamos medidas para liderar pelo exemplo”, declarou.

Olivia Dean reconheceu o avanço, mas deixou claro que a preocupação vai além da própria turnê. Ao criticar o mercado secundário, classificou o setor como “um espaço exploratório e sem regulação” e defendeu limites obrigatórios de revenda ao valor original sempre que solicitados por artistas.
“As turnês roubam dos artistas e roubam dos fãs”, afirmou. “Elas criam desigualdade e histeria. Tenho sorte de ter recebido uma formação sobre as complexidades e a corrupção do sistema de ingressos com a @dicefm e sempre escolherei trabalhar com eles quando possível. Mas saibam que vocês têm poder com outros parceiros.”
A cantora reforçou o direito de intervenção dos artistas
“Limitar a revenda ao valor original é um direito e temos o dever de incentivar um mercado de revenda justo. Muitas vezes nos fazem sentir que não temos escolha, mas sempre existe espaço para perguntar por quê e é sempre um direito dizer não.”
Ao falar sobre o significado dos shows ao vivo, destacou o aspecto pessoal do trabalho:
“Levamos tudo muito a sério, mas o [show] ao vivo é um espaço sagrado que construímos ao longo de dez anos. Perdemos dinheiro em quase todos os shows, mas sentimos profundamente que se trata de um investimento válido para criar um momento em que as pessoas possam se conectar e se desligar por uma hora. Sempre fazemos o possível para tornar esses espaços seguros e acessíveis a todos.”
Em tom de encerramento, concluiu. “Não é todo dia que você se sente ouvido e compreendido, então hoje é um bom dia.”
As declarações surgem em meio ao aumento da pressão internacional sobre práticas de venda de ingressos. No Reino Unido, parlamentares confirmaram planos para tornar ilegal a revenda acima do preço original, após mobilização de artistas como Coldplay e Dua Lipa, que defenderam que a medida pode “ajudar a democratizar o acesso público às artes”.
De qualquer forma, enquanto os shows continuarem esgotando, o mercado mantém poucos incentivos para reduzir preços, deixando ao público a decisão sobre até onde vale pagar.
