Com dez álbuns de estúdio na bagagem e mais de duas décadas de carreira, o The Maine chegou a um marco que poucos grupos alcançam. “Joy Next Door”, o décimo disco da banda foi lançado recentemente e chega com uma proposta diferente: mais cru, mais honesto e, segundo os próprios membros, o mais desafiador de fazer.
Em conversa exclusiva com o Conexão Pop, o guitarrista Garrett Nickelsen e o baixista Kennedy Brock falaram sobre o processo de criação do novo álbum, a simbologia da cor verde que marca essa era e, claro, sobre a vontade de voltar ao Brasil.
Um álbum mais honesto

Uma das marcas de “Joy Next Door” é a mudança de postura do vocalista John O’Callaghan na escrita. Pela primeira vez, ele virou a câmera para si mesmo, deixando de lado a observação do mundo ao redor para falar sobre si. E, diferente dos discos anteriores, pediu a opinião dos companheiros de banda sobre as escolhas líricas.
“A maioria das vezes ele só escreve e a gente fica tipo, ok, legal. Mas dessa vez ele precisava do nosso apoio pra dizer ‘posso falar isso sobre mim mesmo?’ E a gente respondia: sim, é exatamente isso que precisa acontecer agora”, conta Garrett.
As memórias do Brasil
A passsagem pelo “I Wanna Be Tour”, que trouxe o The Maine ao Brasil em 2025, deixou marcas. O grupo tocou em estádio pela primeira vez no país, em São Paulo, depois de uma viagem caótica que envolveu quatro aviões e três carros alugados. Garrett, John e Pat viajaram de volta aos Estados Unidos durante a pausa da turnê e quase não chegaram a tempo para o show.
“Eram quatro aviões e três carros alugados. A gente chegou a São Paulo às 7 da manhã e o show era à 1 da tarde. Estava morto de cansaço, mas valeu muito a pena. Não íamos perder nosso primeiro show em estádio de jeito nenhum”, lembra Garrett, rindo ao perceber que Kennedy ficou relaxando na praia no Rio de Janeiro enquanto tudo isso acontecia.
Sobre o retorno ao Brasil com o novo disco, a resposta foi animadora, ainda que sem data confirmada. “Nada está confirmado ainda, mas estamos trabalhando nisso. Se acontecer, seria ano que vem“
“Joy Next Door” é o décimo álbum de estúdio. É um marco que poucos grupos alcançam. O que foi diferente nesse processo criativo? Fazer dez discos muda a forma como vocês encaram o estúdio?
Garrett: É estranho. Você pensaria que depois de dez discos seria mais fácil, mas foi muito mais difícil. Acho que estávamos tentando ser mais crus na produção e as escolhas de músicas precisavam de coesão de uma forma que talvez nos discos mais recentes não tivesse, onde havia uma música deslocada aqui, outra ali. Tudo precisava se encaixar como uma história sendo contada. O John tinha uma visão lírica, mas levou um tempo até ele realmente entrar nessa história. Quando ele encontrou esse caminho, foi muito útil pra gente enxergar o quadro completo. Foi mais difícil, mas quando terminou foi o mais recompensador que tivemos em muito tempo.
Kennedy: É engraçado porque a gente sempre tenta mudar o processo pelo menos um pouco. Então sempre tem essa sensação de desconforto durante cada disco, e acho que isso é bom. Às vezes é mais avassalador do que outras. Nesse, chegar ao som certo levou tempo. A gente foi numa direção, depois em outra, e em outra, até finalmente se acomodar em algo que pareceu certo. Depois que isso aconteceu, as outras músicas foram se encaixando. Dessa vez a gente se deu mais liberdade e tempo pra pensar antes de decidir, e acho que no resultado final foi muito bom, mas definitivamente tornou o processo mais desafiador.
No disco, o John falou sobre querer ser mais honesto. Como vocês encontram esse equilíbrio sem cair no dramático, especialmente para uma banda que sempre foi emocionalmente intensa nas letras?
Kennedy: Eu honestamente acho que o John acertou dessa vez. Sinto muita honestidade na forma como ele tem se sentido e falado com a gente. Frequentemente quando ele escreve letras, é uma observação do mundo. Dessa vez pareceu que ele virou a câmera pra ele mesmo, e sei que foi desafiador de formas diferentes pra ele. Mas é um disco muito mais honesto e introspectivo.
Garrett: E também foi a primeira vez em muito tempo, talvez a primeira vez de sempre, que ele pediu feedback da gente sobre escolhas líricas. A maioria das vezes ele só escreve e a gente fica tipo, ok, legal. Mas dessa vez, como o Kennedy disse, virar a câmera pra ele mesmo fez com que ele precisasse do nosso apoio pra dizer “posso falar isso sobre mim mesmo?” E a gente respondia: sim, é exatamente isso que precisa acontecer agora. Então mergulhar um pouco nesse lado lírico como resto da banda foi muito interessante e uma forma nova de trabalhar.
Cada era do The Maine tem uma cor. Essa é verde. Como essa tradição começou e o que o verde representa pra vocês agora, musical e emocionalmente?
Garrett: O verde surgiu bem cedo, quando a gente tinha só algumas músicas. Eu estava conversando com o Pat bem no início porque as cores definitivamente viraram uma coisa. Havia algo sobre o verde que parecia orgânico, e com os instrumentos que estávamos usando, como piano e violão acústico sendo muito presentes no disco, havia algo como… orgânico, não necessariamente natureza, mas tipo grama. A grama acaba sendo uma coisa grande no disco. Então durante o processo eu ficava mudando a TV do estúdio todo dia pra algo verde e não estava falando muito sobre isso, tentando dar dicas sutis a todo mundo de como estava se sentindo pra mim. Quando a gente finalmente conversou sobre isso, todo mundo disse: sim, é definitivamente isso. O verde pra mim é crescimento e organicidade do disco.
Kennedy: É engraçado porque nos discos mais recentes a cor já está mais na frente quando a gente está fazendo a música. Mas antes ela surgia naturalmente como produto de querer amplificar o sentimento do disco. Nesse, como o Garrett disse, foi bem cedo. E ter essas dicas sutis no estúdio ajuda a criar o mundo inteiro ao redor. Pra mim o verde também remete ao termo “ser verde”, no sentido de ser novo, fresco. Esse disco abriu novas portas e a cor combina com esse estado de espírito de ainda encontrar coisas novas depois de tantos discos.
No ano passado, vocês vieram ao Brasil na “I Wanna Be Tour” e tocaram num estádio pela primeira vez no país. Que memórias ficaram dessa passagem?
Garrett: Foi a semana mais louca da minha vida, acho. A gente tocou em Curitiba, foi incrível, e então eu, o John e o Pat decidimos voar pra casa durante a semana de pausa. Esses caras ficaram curtindo o Rio. Na volta, a gente estava em Phoenix indo pra Dallas quando uma tempestade bateu dois minutos antes de pousar. Nos desviaram pra Austin. O aeroporto era um caos. A gente alugou um carro, foi dirigir pra Dallas de madrugada porque o voo era às 6 da manhã. O Pat acordou às 4, foi pro aeroporto e o voo foi sendo adiado e adiado. Então a gente alugou outro carro e foi pra Houston. Chegamos 45 minutos antes do voo, embarcamos, chegamos em São Paulo. Era de manhã e o show era à 1 da tarde. Estava morto de cansaço. Quatro aviões e três carros alugados. Mas valeu muito. Não íamos perder nosso primeiro show em estádio de jeito nenhum.
Kennedy: Enquanto isso eu estava relaxando na praia no Rio.
Quando o The Maine volta ao Brasil com o novo álbum?
Garrett: Nada está confirmado ainda. Se acontecer, seria ano que vem. A gente ama ir ao Brasil, é um dos nossos lugares favoritos. Tem muitas partes móveis, mas a gente tenta o máximo possível.
Kennedy: Estou animado pra voltar. Aquele show foi provavelmente minha experiência favorita no Brasil.
Duas décadas de carreira, um festival próprio esgotado e agora o décimo álbum. O que ainda move o The Maine? Vocês ainda sentem que têm algo a provar?
Kennedy: A gente ainda realmente ama fazer e tocar música. É divertido de verdade. A gente se dá muito bem e enquanto continuar sendo divertido, não há razão pra parar ou desacelerar. Pra mim pelo menos, só aprecio cada vez mais.
Garrett: Acho que a gente está sempre aprendendo e sempre querendo tentar coisas novas. E o fato de ter um grupo de cinco pessoas que se dão tão bem e ainda estão motivadas a continuar empurrando… acho que isso não acontece muito. A gente é muito orgulhoso do que fez e de quanto tempo conseguimos fazer isso. Vamos continuar vendo pra onde vai. Tem sido divertido até agora.