Vestimos avatares tão precisos que, pouco a pouco, passamos a caber neles melhor do que em nossa própria pele. Eles deixaram de ser apenas representações e passaram a carregar aquilo que reconhecemos como nosso: a música que nos atravessa, os traços que nos emocionam, as imagens que se gravam. Nesse processo, essa identidade projetada também começa a nos moldar. O algoritmo aprende nossos desejos, identifica nossos padrões e sabe o que queremos antes mesmo de encontrarmos palavras para dizê-lo. Afinal, como permanecer humano quando nossa versão digital parece mais viva do que nós?
É diante desse dilema que a obra de Brittney Denise Parks — mundialmente conhecida como Sudan Archives — se ergue como uma resposta. Sua saída não foi a fuga, mas a arte de habitar a tecnologia sem se dissolver nela. “Para viver na Terra hoje, você precisa saber usar as engrenagens e ser bom com computadores, porque o mundo está se tornando tão dependente disso, e sempre foi assim.” Ao manejar as máquinas como ninguém mais saberia, preserva aquilo que a torna mais autêntica.
Lançado em outubro de 2025, The BPM é o terceiro álbum da artista — e o mais ambicioso de sua carreira. Depois do aclamado Natural Brown Prom Queen (2022), ela mergulha de vez na cena eletrônica, transitando pelo house, techno e hip-hop, enquanto consolida a persona “Gadget Girl”: um lado de si fascinado pela inovação e pela possibilidade de criar sem amarras. “Com a IA, podemos se perder dentro disso. Hoje em dia até vemos robôs fazendo música, mas o que mantém tudo especial é o aspecto humano”, reconhece. É justamente dessa tensão que o projeto extrai sua força: do encontro entre o corpo que sente e tecnológico que responde. Uma coreografia entre diferentes facetas, que se observam, se transformam e se potencializam. Afinal, “Nunca foi sobre o robô, sempre foi sobre o criador.”
Nascida em Cincinnati, Parks aprendeu violino sozinha aos nove anos, bebendo do blues e da música clássica. Foi, porém, durante a época em que viveu entre o Sudão e o Egito que descobriu uma tradição na qual as cordas se entrelaçavam a ritmos percussivos — uma experiência que a levou a questionar a rigidez do repertório erudito ocidental. De volta aos EUA, incorporou essas influências à produção eletrônica, criando uma sonoridade que equilibra a imprevisibilidade do ao vivo e a precisão dos recursos digitais, sem jamais permitir que o mecanismo assuma o controle. Para ela, essas ferramentas são também uma forma de investigar a ancestralidade negra do instrumento e recuperar sua vocação para a dança e a celebração, distante da postura imóvel dos palcos clássicos.
Ao longo de sua discografia, Brittney também se permite ocupar lugares emocionais distintos: Athena (2019) expõe a vulnerabilidade e o receio dos holofotes; Natural Brown Prom Queen, a maturidade; e THE BPM, a audácia. Cada trabalho corresponde a uma fase real, não a uma trama sobre uma personagem fictícia. “Tenho todas essas personalidades e consigo canalizar essas versões dramáticas quando estou fazendo diferentes álbuns.” Essa metamorfose também se revela na forma como se relaciona com o palco: “Estou definitivamente mais ousada e honesta. Quando mais nova, a timidez falava mais alto. E, mesmo Athena sendo meu favorito, foi provavelmente o que eu mais tive medo de performar ao vivo. Agora, me sinto muito mais confortável.”
Em suas mãos, o arco deixa de ser apenas herança para se tornar uma linguagem pulsante, capaz de conectar passado e presente enquanto abre espaço para aquilo que ainda está por vir. “Sinto que sou eu mesma, só que muito mais rápida e amplificada do que normalmente seria. Não me parece uma versão diferente de mim, e sim mais avançada porque os gadgets tornam tudo mais fácil. Posso dançar melhor, sem fios presos ao microfone ou ao violino, tudo flui com muito mais naturalidade. Não estou presa a nada, estou livre.”
O movimento é expressão de sua liberdade. E o Brasil — com sua raiz rítmica, onde a batida conduz e o tambor assume o protagonismo — sempre esteve conectado à frequência natural de sua arte. Talvez por isso, sua estreia em São Paulo, no fim de setembro, carregue um significado que vai além da própria performance. Nos dias 27 e 28, Archives chega ao Balaclava Fest e ao Cine Joia, e a expectativa pelo encontro chega a ser contagiante: “Sempre foi um dos lugares que eu mais quis conhecer, mesmo sem nunca ter estado lá. Não sei por que ainda não consegui ir. Quando tive a oportunidade, fiz questão. Ouvi dizer que tenho fãs por aí e eu realmente quero vê-los.”
Essa sintonia se traduz em admirações concretas, como as que nutre por Liniker e Afreekassia. A história com Liniker começou em Austin, no Texas, quando a ícone por trás de “Caju” foi ao seu show e, ao vê-la em ação, enviou uma mensagem generosa pelo Instagram. Sudan guarda esse afeto até hoje: “Isso já faz uns anos. Desde então, venho acompanhando ela, vendo ela estourar, e é tão legal ver tudo o que está fazendo. Quero muito colaborar com ela.” Esse laço representa o encontro de duas vozes que, de margens distintas, recusam-se a caber em caixas e encontram beleza justamente onde a tradição vê contradição.
Para São Paulo, Sudan Archives reservou algumas surpresas. Depois de tantas apresentações usando macacões justos, desta vez, estará diante do público com um conjunto de duas peças e, principalmente, estará descalça.“ Tem pequenas coisas que quero fazer. Definitivamente fiz uma roupa específica.” Estar sem sapatos em solo tropical é estabelecer uma conexão literal com o chão de um país onde a música emerge dos pés, dos quadris, da bacia. E essa aproximação não ficará restrita ao visual. Ela também quer levar elementos da sonoridade brasileira para a apresentação: “Quero realçar a batida forte e os graves. Basicamente, você pode preparar seu show e escolher determinadas partes do instrumental para colocar em evidência. Quero destacar essas partes porque foi daí que vieram muitas das minhas influências inconscientes.”
Essa atenção ao espetáculo não é apenas um detalhe. Pela primeira vez em sua carreira, a performance já estava dentro do estúdio. “Nunca fiz músicas pensando em como iria apresentá-las. Sempre fazia a música e depois descobria como levá-la ao vivo”, confessa. “Mas, para este álbum, eu sentava para gravar e pensava: ‘Quais elementos musicais posso destacar mais? Pois vou estar sozinha no palco.’” A intenção é que a canção não apenas seja ouvida, mas expressada em coreografia.
Assumir a produção executiva foi outro passo nessa direção: o de reconhecer o próprio timbre como autoridade. “Isso me deu mais confiança para dizer não. Quando você é produtora executiva, tem a palavra final nas decisões criativas. Antes, era difícil para mim dizer não porque me importava com o que os outros pensavam. Agora, com mais experiência, tenho confiança para falar: ‘Não gosto disso. Tira. Coloca aquilo.’” Entre máquinas, ritmos e personagens, THE BPM é a prova de que, mesmo no coração do eletrônico, o que vibra é o humano — não como resistência, mas como atitude. E atitude, como Sudan Archives demonstra, é um verbo que se inscreve no corpo.
SERVIÇO
Balaclava Records apresenta: Sudan Archives em São Paulo
Data: 28 de Setembro de 2026, segunda-feira
Local: Cine Joia – Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade
Horários: Portas 20h / Show 21h30
Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal
Ingressos: https://ingresse.com/sudanarchives-sp/
*Por Luana Murakami
