Quando Shaboozey lançou The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales na última sexta-feira (31), o artista poderia seguir o caminho mais previsível da indústria musical. Depois do impacto mundial de “A Bar Song (Tipsy)” do álbum Where I’ve Been, Isn’t Where I’m Going, de 2024, que se tornou um dos maiores sucessos recentes do country-pop, uma sequência baseada na mesma fórmula parecia o movimento mais seguro.
O cantor norte-americano escolheu uma direção diferente. Em vez de repetir o som comercial que conquistou as rádios, Shaboozey usou o momento de maior exposição da carreira para criar um álbum conceitual com 20 faixas, acompanhado por uma história em quadrinho de três edições.
O projeto apresenta uma narrativa de faroeste sobre Cherie Lee, filha de um xerife que busca vingança após a morte do pai. A escolha transforma o álbum em uma experiência que combina música, roteiro e elementos visuais.
As músicas que constroem o faroeste de Shaboozey
The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales funciona como uma narrativa contínua, em que cada faixa ajuda a desenvolver personagens, conflitos e diferentes momentos da jornada apresentada por Shaboozey.
Em vez de reunir apenas músicas inspiradas pela estética country, o artista constrói uma trilha sonora para um universo próprio, com elementos de faroeste, soul, hip-hop e R&B.
“Born to Die” apresenta a filosofia dos fora da lei
Como faixa de abertura da era do álbum, “Born to Die” estabelece a visão de mundo presente na narrativa. A música utiliza a figura do fora da lei para abordar a passagem do tempo, a valorização do presente e a ideia de aproveitar a vida mesmo diante da própria fragilidade.
Com uma sonoridade que mistura country e rock, Shaboozey transforma uma reflexão sobre mortalidade em um hino de resistência e celebração, apresentando o espírito dos personagens que habitam o universo do disco.
“Cowgirl” apresenta Cherie Lee antes da vingança
Em “Cowgirl”, Shaboozey mostra uma versão mais leve e carismática da protagonista Cherie Lee. A faixa acompanha o encontro com uma mulher independente e confiante, interpretada por Ciara Miller, em um ambiente típico do faroeste, explorando atração, liberdade e a energia de uma noite em um saloon.
A música funciona como uma apresentação da personagem antes dos conflitos centrais da narrativa. O videoclipe intensifica essa construção ao transformar Cherie Lee em uma figura que desafia expectativas dentro do imaginário tradicional dos filmes de velho oeste.
“Bullets & Blades” revela as marcas do passado
A participação de Kehlani em “Bullets & Blades” adiciona uma dimensão emocional ao projeto. A faixa aborda feridas deixadas por experiências difíceis e transforma essas marcas em símbolos de sobrevivência e força.
Dentro da história do álbum, a música representa um momento de vulnerabilidade dos personagens. A combinação entre country e R&B cria um contraste entre a dureza do universo dos pistoleiros e a intimidade dos sentimentos apresentados pela dupla.
“Burn It Down” transforma dor em vingança
Com participação de Leon Bridges, “Burn It Down” representa o momento em que a narrativa ganha maior intensidade. A faixa apresenta uma resposta direta diante da injustiça e transforma lealdade e proteção em uma declaração de confronto.
A mistura entre a voz soul de Leon e a atmosfera cinematográfica criada por Shaboozey expõe o lado mais dramático do álbum. A música conecta a tradição das histórias de vingança do faroeste com uma interpretação moderna sobre justiça e resistência.
“Lone Survivor” encerra a jornada com sobrevivência
“Lone Survivor” representa o lado mais sombrio da narrativa, acompanhando um personagem perseguido e marcado pela vida como fugitivo. A faixa explora temas como perseguição, perigo e a necessidade de permanecer de pé diante das ameaças.
O clima de tensão aproxima a música das grandes histórias de faroeste, enquanto Shaboozey reforça a imagem do sobrevivente que continua seguindo seu caminho apesar das dificuldades.
Um álbum que nasceu como uma história antes da música
The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales foi desenvolvido primeiro como uma narrativa. Antes das gravações, Shaboozey estruturou o universo da obra, criando uma história que depois ganhou forma nas canções.
O álbum inclui interlúdios cinematográficos, arranjos orquestrais e momentos narrados por nomes como Sam Elliott, Jamie Foxx e Teyana Taylor.
A construção aproxima o trabalho de grandes álbuns conceituais da história da música, especialmente dentro do country, gênero que possui uma longa tradição de contar histórias por meio de personagens e narrativas completas.
Acompanhado por uma HQ, o projeto expande a experiência para além do áudio e transforma o disco em uma produção multimídia.
Shaboozey amplia o espaço de artistas negros no faroeste
Um dos pontos mais importantes do álbum está na forma como Shaboozey utiliza o imaginário do oeste americano.
Durante décadas, filmes, músicas e narrativas populares construíram o faroeste como um território dominado por personagens brancos. Com The Outlaw Cherie Lee, o artista cria uma nova perspectiva dentro desse universo e coloca personagens negros no centro de uma mitologia tradicionalmente restrita.
A escolha também conversa com um movimento mais amplo de transformação do country, gênero que vem recebendo novas influências e artistas com diferentes origens culturais.
Mais do que misturar estilos musicais, Shaboozey questiona quem pode contar determinadas histórias e ocupar determinados espaços dentro da cultura americana.
O artista vai além da fórmula de “A Bar Song (Tipsy)”
O sucesso de “A Bar Song (Tipsy)” colocou Shaboozey em uma posição rara. A faixa ultrapassou fronteiras, dominou paradas musicais e apresentou ao grande público uma fusão entre country e hip-hop.
Em vez de explorar uma sequência de músicas semelhantes, o artista reduziu a presença de elementos mais próximos do rap em parte do novo álbum para mergulhar em uma sonoridade mais ligada ao country tradicional.
A produção aposta em guitarras acústicas, violinos, piano de saloon e uma atmosfera mais sombria. Ao mesmo tempo, o projeto mantém conexões com outros gêneros por meio das participações de artistas como Gunna, Kehlani e Leon Bridges, além de Ciara Miller nos clipe de “Cowgirl” e “Burn It Down”, faixa que mais se aproxima do hit de 2024.
Toda essa combinação mostra que Shaboozey não abandonou a identidade construída na fusão entre country, hip-hop e outras vertentes da música negra.
O artista ampliou uma narrativa que começou a ganhar destaque em 2024, quando participou do Cowboy Carter, álbum country de Beyoncé, nas faixas “Spaghettii” e “Sweet Honey Buckiin’”. As duas músicas já exploravam temas centrais que também aparecem em sua nova fase, como a quebra de barreiras dentro do country, a rejeição de rótulos impostos pela indústria e a valorização da presença negra nas histórias ligadas ao gênero.
Em “Spaghettii”, Shaboozey participa de uma faixa que questiona fronteiras musicais rígidas e enfatiza a liberdade artística de ocupar diferentes espaços. Já “Sweet Honey Buckiin’” aborda identidade negra sulista, resistência e a retomada de narrativas sobre cowboys negros.
Com The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales, o cantor transforma essas ideias em uma obra própria, criando um universo de faroeste que mistura tradição country, rap, soul e uma nova perspectiva sobre quem pode contar essas histórias.
Participações que potencializam a dimensão do projeto
Jamie Foxx assume um papel central no conceito de The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales como narrador oficial do álbum em “The Outlaw Cherie Lee” , além da participação em “Hell Is Hot”. Ambas as faixas ajudam a apresentar e desenvolver a narrativa do projeto.
Além disso, Gunna aparece em “High Noon” e Teyana Taylor participa de “Death Of Jeremiah Walker”. Já o ator americano Sam Elliott contribui com a narração em “Don’t Count Down”, enquanto o cantor country sul-africano Orville Peck encerra a jornada em “The Epilogue”, última faixa do disco.
A tradição country ganha novas interpretações
O impacto do novo álbum de Shaboozey está menos em abandonar o passado e mais em mostrar que a tradição pode receber novas interpretações.
O projeto chega em um momento em que o country amplia suas fronteiras e recebe influências do hip-hop, R&B e pop. O cantor representa uma geração de artistas que não trata gêneros musicais como limites rígidos.
A obra também reforça uma mudança na indústria: grandes artistas não precisam mais escolher entre sucesso comercial e ambição criativa.
Shaboozey prova que “A Bar Song” não foi um acaso
O maior desafio após um sucesso global é provar que existe uma carreira além daquele momento. Com The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales, Shaboozey responde a esse desafio com um projeto ambicioso.
O álbum mostra um artista interessado em construir um universo próprio, explorar novas formas de narrativa e ampliar a presença de diferentes vozes dentro do country. Mais do que uma continuação de “A Bar Song (Tipsy)”, o disco representa uma tentativa de criar um legado na música.
