Desde o início da carreira solo, Jão construiu uma identidade muito clara: transformar os próprios relacionamentos em música. Ao longo de quatro álbuns, o cantor fez do amor, das idas e vindas, dos términos e das reconciliações o centro de sua narrativa. Em seu novo trabalho “Memórias Póstumas”, lançado nesse último domingo (26), essa essência permanece praticamente intacta.

A faixa de abertura, “Catedral”, talvez seja a melhor música do projeto e também a maior oportunidade desperdiçada do álbum. É nela que Jão apresenta um conceito mais artístico, vulnerável e pessoal, abordando a morte do pai e deixando a impressão de que, finalmente, exploraria um território inédito em sua discografia.
Só que duas faixas depoois, o álbum retorna rapidamente ao lugar onde Jão sempre esteve: as cartas de amor para o mesmo relacionamento que, há cinco discos, vive de idas e vindas, términos e reconciliações. E é justamente aí que mora o principal problema do projeto.
Mas o que Jão cantaria sem esse relacionamento?
Desde Lobos, sua obra parece revisitar o mesmo capítulo da vida. Mudam as metáforas, muda a sonoridade e muda a forma de contar, mas a história permanece praticamente a mesma. O relacionamento retratado nas canções é constantemente apresentado como um ciclo de términos, reconciliações, inseguranças e dependência emocional. Em muitos momentos, a dinâmica retratada soa emocionalmente desgastante e tóxica. Depois de cinco álbuns, fica a sensação de que Jão continua preso a essa história, que já parece ter entregado tudo o que poderia render artisticamente.
Isso não significa que faltem boas músicas. Muito pelo contrário. “Catedral”, “Curioso”, “Passeios Noturnos”, “Coincidências”, “O Arquiteto” e “Memórias Póstumas” estão entre os melhores momentos do disco.
“Curioso” talvez seja a faixa mais interessante do projeto. A música transmite a sensação de um renascimento, de alguém finalmente saindo da sombra da depressão e percebendo que o mundo continuou girando. Musicalmente, cresce de forma impressionante. Começa conduzida apenas pelo violão e evolui até um rock quase progressivo, que explode em uma das construções mais interessantes do álbum.
Esse clima desemboca em “Passeios Noturnos”, provavelmente a música mais pop rock do disco. Guitarras marcantes, orquestra e um refrão poderoso ajudam Jão a falar sobre o futuro e a construção de uma nova história do relacionamento.
Já “O Arquiteto” entrega uma das letras mais bonitas do disco. A música traduz a ansiedade de construir um futuro inteiro ao lado de alguém, imaginando casa, jardim e filhos, enquanto uma única dúvida continua assombrando todos esses planos: “e se não for com você?”. A ponte emociona justamente porque mostra que todos aqueles sonhos existiam apenas para chegar à mesma conclusão: sempre foi aquela pessoa.
Destaque para o encerramento de “Memórias Póstumas”, Jão assume a perspectiva de alguém que já morreu e observa a própria despedida. A referência a Machado de Assis é elegante, enquanto a orquestra conduz o desfecho com enorme delicadeza. É um final bonito, sensível e um dos poucos momentos em que o álbum realmente alcança o nível artístico que parecia prometer na abertura.
Outro aspecto que chama atenção é a ausência de um grande hit. Pela campanha de divulgação, era fácil imaginar um álbum que marcasse uma ruptura artística na carreira de Jão. No fim, o projeto parece muito mais um registro confessional de um momento específico da sua vida do que uma tentativa de reinventar sua identidade musical.
Talvez essa tenha sido justamente a intenção, no entanto, fica difícil ignorar a sensação de que havia espaço para ir além.
E o que achamos de “Memórias Póstumas”?
Este provavelmente não é o melhor disco de Jão, mas é, sem dúvida, o mais maduro que ele já lançou.
Musicalmente, o artista evolui, experimenta novas texturas e entrega uma produção elegante. Liricamente, porém, continua preso ao mesmo relacionamento que alimenta sua discografia desde o início da carreira. O conceito apresentado em “Catedral”, “Literatura” promete um álbum sobre perdas, luto e futuro, mas logo é substituído por uma narrativa que o público já conhece muito bem desde 2018.
Quando se permite olhar para além desse romance, Jão mostra um compositor muito mais interessante. Faixas como “Curioso”, “O Arquiteto” e, principalmente, “Memórias Póstumas” apontam caminhos que merecem ser explorados nos próximos trabalhos. Este disco deixa a impressão de que o artista está pronto para dar um novo passo, mas ainda escolhe permanecer na mesma página, o que limita seu crescimento como artista.
Nota: ★★★½☆ (3,5/5).
