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Review | Em Confessions II, Madonna prova que a pista de dança nunca deixou de ser seu lugar

Existem poucos artistas capazes de lançar uma sequência direta para um dos álbuns mais amados de sua carreira sem parecer uma tentativa desesperada de reviver o passado. Madonna é uma dessas exceções.

Quando Confessions on a Dance Floor chegou às lojas, em 2005, ela já não precisava provar mais nada. Ainda assim, entregou um disco que redefiniu a música pop da década seguinte. Vinte anos depois, o álbum envelheceu melhor do que muitos de seus contemporâneos e se tornou um favorito absoluto entre os fãs, muito por entender algo que continua verdadeiro em 2026: a pista de dança nunca foi apenas um lugar para fugir da realidade. Ela também serve para enfrentá-la. É justamente desse ponto que nasce Confessions II.

O maior erro seria esperar uma simples atualização de Hung Up ou uma coleção de faixas tentando reproduzir aquele momento. Madonna faz exatamente o contrário. Ela revisita o universo criado em 2005, mas entende que nem ela nem o mundo são os mesmos. O resultado é um álbum que soa contemporâneo, sem correr atrás das tendências, e que provavelmente também envelhecerá muito bem.

O reencontro com Stuart Price, arquiteto sonoro do álbum original, devolve à cantora uma unidade que há muito tempo não aparecia em sua discografia. Mas a parceria não vive apenas de nostalgia. Madonna também abre espaço para nomes de outra geração, como Sabrina Carpenter, Feid, Martin Garrix e Stromae, criando um diálogo entre diferentes momentos da música pop sem perder sua identidade.

Logo no início, fica claro que ela também responde às discussões atuais sobre a cultura clubber. Em One Step Away, Madonna praticamente rebate a ideia de que a pista de dança perdeu relevância. Para ela, dançar continua sendo um ritual coletivo, um espaço onde pessoas se encontram, se curam e sobrevivem. Essa visão foi, inclusive, apresentada pela própria artista durante a divulgação do álbum.

É curioso perceber que, aos 67 anos, Madonna canta menos preocupada em impressionar vocalmente e mais interessada em contar histórias. Sua voz já não tem a mesma potência de décadas atrás, mas ganha algo mais valioso: intenção. Ela interpreta cada faixa como alguém que realmente viveu tudo aquilo.

O álbum inteiro funciona como uma longa madrugada. A primeira metade pulsa com house, disco, French touch e eletrônica em estado puro. Depois, quase sem que o ouvinte perceba, a festa começa a desacelerar.

É nesse momento que Confessions II cresce

Faixas como The Test, gravada com Lourdes Leon, Betrayal e Fragile lembram a espiritualidade de Ray of Light, mas sem parecer uma repetição. Elas soam como a continuação natural de uma artista que passou décadas transformando suas próprias cicatrizes em música.

Danceteria merece um capítulo à parte. É, provavelmente, uma das melhores músicas pop lançadas neste ano. Quando Madonna canta “Everyone here is a work of art”, ela resume toda a proposta do disco: celebrar pessoas imperfeitas que encontram liberdade quando as luzes da pista se acendem.

Read My Lips, ao lado de Feid, incorpora elementos latinos e até pequenos acenos ao funk brasileiro, enquanto Bizarre, produzida com Martin Garrix, foge completamente do som pelo qual o DJ ficou conhecido. School é outro destaque absoluto, transformando uma canção sobre amor e confiança em um dos momentos mais delicados do álbum.

Quando L.E.S. Girl encerra o álbum, a sensação é parecida com o fim de uma longa noite. As luzes da boate se acendem, você se olha no espelho antes de voltar para casa e percebe que, por algumas horas, conseguiu esquecer tudo o que existia do lado de fora.

Mas talvez a maior qualidade de Confessions II seja outra. Madonna compreende que o verdadeiro legado de Confessions on a Dance Floor nunca esteve apenas nas batidas ou nas transições impecáveis entre as faixas. Sempre esteve na ideia de que a pista de dança pode ser um templo. Um lugar onde euforia, medo, desejo, culpa, amor e fragilidade convivem ao mesmo tempo.

Confessions II - Madonna

95%
95%
PERFEITO

Existem poucos artistas capazes de lançar uma sequência direta para um dos álbuns mais amados de sua carreira sem parecer uma tentativa desesperada de reviver o passado. Madonna é uma dessas exceções.

  • 9.5
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