Matu Miranda lançou APUAMA, seu segundo álbum autoral, nesta terça-feira (4) nas plataformas digitais. Com 13 faixas e participações de Elisa Lucinda, Josyara, Chico Chico e Carlos Malta, o disco parte de experiências pessoais do cantor e compositor sul-mato-grossense radicado no Rio para construir uma narrativa sobre movimento, saudade e pertencimento.
O título vem do tupi-guarani. “Apuama é uma palavra tupi-guarani para aquilo que não tem morada fixa. É correnteza, movimento”, explica Matu. A imagem resume bem sua trajetória: criado entre ausências, mudanças de cidade e despedidas precoces, ele transformou o nomadismo em matéria-prima musical. O resultado é um trabalho que percorre samba, valsa, chamamé, guarânia, baião, marcha-rancho e samba-chula, com referências que vão de Edu Lobo e Djavan a Almir Sater, Gilberto Gil e Hermeto Pascoal.
Produzido com Giuliano Eriston, o álbum foi gravado ao vivo em estúdio, com violão, baixo, bateria e teclados tocando juntos para preservar a dinâmica e a conexão entre os músicos.


Faixa a faixa
O disco abre com “Oração ao sol de amanhã”, com texto de Elisa Lucinda e música de Matu, funcionando como um despertar poético antes de “Reza braba”, samba em parceria com Luizga que chega como mantra de firmeza: “Uma oração não religiosa de otimismo, de fé na poesia, de fé na vida, na música”, conta o artista.
“É bom voltar”, primeiro single do álbum, traduz o movimento de chegadas e partidas numa levada de Jazz Waltz com sotaque brasileiro. O arranjo conta com Matheus Donato no cavaquinho de 6 cordas como solista convidado. A capa do single parte de uma foto do pai de Matu quando ele tinha três anos, uma criança com as botas do pai diante de um caminho no Mato Grosso do Sul.
“Cantarei até o fim” é um chamamé, ritmo fronteiriço que Matu cresceu ouvindo com o avô, composta em parceria com Marcela Mar e Marcelus Anderson, pai e filha de Campo Grande. Já “Céu azulzin” (feat. Josyara) leva o disco para a Bahia: um arranjo de samba-chula da composição de Wilson Bebel, inspirado na linguagem de violão de Roberto Mendes.
“Flor de cacto” vira marcha-rancho com “nostalgia carnavalesca”: letra de Matu sobre um amor que doeu mas cicatrizou, sobre uma melodia do mestre Arismar do Espírito Santo, com solo de Frederico Heliodoro. “Interlúdio para a Espera” divide o disco como um respiro instrumental, pensado para os momentos de ócio em aeroportos e filas de embarque, com arranjo de vozes assinado por Chico Lira.
A faixa-título “Apuama” é uma guarânia com formação de sopros inusitada: Bansuri (flauta indiana), clarinete baixo, flauta baixo, clarinete e uma flauta transversal de madeira de 1876, com Carlos Malta como convidado. “Na repetição, canto uma tradução livre para o castelhano da letra”, conta Matu.
“Minha travessia”, parceria com Madhav Bechara, nasce de um sofrimento pessoal profundo: “Compor essa música me salvou”. “Gosto do gesto”, de Giuliano Eriston, muda o clima com groove contagiante inspirado no ritmo africano Soukous. “Grão”, única faixa voz e violão do disco, com letra de Iara Ferreira, rendeu a Matu um dos momentos mais marcantes da carreira: cantar a música para Gilberto Gil no próprio estúdio do artista.
“Estética da fome” (feat. Chico Chico) é um baião meio rock, meio jazz nascido no período em que Matu morou no Ceará, com parceria de Luizga. A letra dialoga com “Carcará”, de João do Vale, e referencia o manifesto “Estética da Fome” de Glauber Rocha, citando “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. “A gravação com Chico Chico foi catártica”, define Matu.
O disco fecha com “O que será de nós?”, uma interrogação sobre fins e recomeços que nasce de uma reflexão sobre o término de um relacionamento mas expande seu sentido para algo maior: “Neste momento, essa música abre um sentido outro, que é o da preocupação com o nosso futuro enquanto nação”.
Tracklist completa
- Oração ao sol de amanhã
- Reza braba
- É bom voltar
- Cantarei até o fim
- Céu azulzin (feat. Josyara)
- Flor de cacto
- Interlúdio para a Espera
- Apuama (feat. Carlos Malta)
- Minha travessia
- Gosto do gesto
- Grão
- Estética da fome (feat. Chico Chico)
- O que será de nós?









