Aretuza Lovi lançou recentemente seu novo trabalho “Borogodó 2”. A 1ª parte do projeto conta com 4 faixas e mergulha de cabeça nas raízes da música nordestina, entregando um trabalho repleto de ritmo, nostalgia e muita identidade. A cantora, que já havia incorporado elementos do Norte e Nordeste em seus trabalhos anteriores, agora dedica um álbum inteiro para homenagear essa rica cultura musical.

Batemos um papo com a drag e relembramos os primeiros anos de sua carreira, a influência cultural de seu som e o projeto de regravações que apresenta para uma nova geração, clássicos de sua infância. Leia abaixo.

Borogodó 2 finalmente saiu! E agora com uma homenagem ao Nordeste, como foi o processo de criação desse projeto, escolha de referências e mais?

Desde o meu primeiro álbum, ‘Popstar’ (2013), eu já incorporava elementos da música do Norte e Nordeste, como o tecnobrega. Essa influência sempre esteve presente na minha carreira, porque eu escuto esses ritmos diariamente e os considero como verdadeiras orações. Essa conexão profunda me levou a criar um álbum inteiro dedicado a homenagear as raízes do Norte e Nordeste.

Para mim, esse não é apenas um álbum pop com batidas de forró. É um mergulho profundo na cultura nordestina, com ritmos autênticos como forró, calipso e tecnobrega. Foi um processo de dois anos de muito estudo, onde eu me aprofundei nos compositores, nas músicas e na musicalidade dessas regiões. Além disso, foi fundamental contar com a colaboração de produtores locais, que possuem um profundo conhecimento e paixão por esses ritmos.

Esse álbum é uma forma de agradecer a tudo que o Norte e Nordeste me proporcionaram. Essas regiões me ajudaram a construir minha identidade musical e me deram a força para ser quem sou hoje. É uma homenagem a um povo que me acolheu e me inspirou.

Ao longo da produção do álbum, eu tive a oportunidade de revisitar muitas experiências e emoções que vivi nessas regiões. A música me permitiu expressar minha gratidão e celebrar a riqueza cultural do Norte e Nordeste.

O projeto tem uma regravação de “Tutti Fruti” com Calcinha Preta. Como rolou a colaboração?

A Calcinha Preta, nossa… Tenho tantas lembranças! Lembro de assistir ao primeiro DVD em Salvador, a capa era incrível. E quando comprei o CD ‘Manchete de Jornais’, eu ficava decorando todos os arranjos, sabia todas as músicas de cor. Era um sonho impossível gravar com elas.

Antes da Paulinha falecer, a gente se seguia nas redes sociais. Trocamos várias mensagens, até pensamos em fazer uma música juntas. Infelizmente, ela se foi. Mas antes disso, ela me convidou para participar do DVD dela. Eu fiquei muito emocionada. A Calcinha Preta sempre levantou a bandeira da diversidade, e eu me identifico muito com isso.

Depois da morte da Paulinha, eu fui em um show da Calcinha Preta com a Pocah e chorei muito. Foi uma noite inesquecível. Aí, eu resolvi que tinha que continuar esse sonho. Entrei em contato com a banda e a gente decidiu regravar a música ‘Lingerie’ com a nova integrante, a Ohara. Foi uma experiência incrível!

Agora explica pra gente, o que é arrochar o nó?

Vem de corote, né? Essa expressão era muito usada nas bandas de forró dos anos 90, tipo a Mastruz com Leite. ‘Arrochar o nó’ era sinônimo de acelerar o ritmo, de colocar todo mundo pra dançar. E na pandemia, essa frase virou um meme gigante. Eu resolvi ressignificar esse meme e criar uma música com essa vibe, misturando o forró com o eletrônico.

A gente já tinha regravado ‘Acelerou’ da Calypso e agora nesse EP tem uma nova versão com Attoxá. E como eu morei na Bahia, a gente também trouxe um pouco do pagodão e do arrocha. A galera sempre pede um som mais agitado, né? Nesse EP, tem uma parceria incrível com a Calcinha Preta. Regravamos a música ‘É Chamego ou Xaveco’, um clássico do Nordeste. Tem também uma versão de ‘Sacrifice’ do Elton John, com a autorização dele! Foi demais conseguir essa autorização.

Esse trabalho tá sendo muito importante pra mim. É uma forma de homenagear as minhas raízes e de mostrar que a música nordestina é muito rica e versátil.

Você completou mais de 10 anos de carreira. O que mudou lá do começo pra cá?

Eu falo que eu entrei nesse mato com uma faca de serrinha, assim, cortando, assim, que nem dinheiro pra enxada, não tinha. Naquela época, não existiam plataformas digitais. Era tudo muito diferente. Eu tinha muito medo de falar isso antes, mas hoje eu me sinto à vontade para dizer: eu fui uma das pioneiras do tecnobrega e da música pop brasileira. As pessoas riam na minha cara, jogavam meus CDs no chão. Ninguém acreditava que uma drag queen pudesse fazer sucesso com esse tipo de música.

Foto: Divulgação

Mas eu fui persistente. E junto com a Pabllo, a Glória e a Lia, a gente construiu um movimento. Em 2017, o drag music explodiu no Brasil. A gente abriu portas para muitas outras drags incríveis. E hoje, a gente vê o drag em todos os estilos musicais, do trap ao sertanejo. É muito gratificante ver como o movimento cresceu. E eu tenho muito orgulho de ter feito parte disso tudo. A gente enfrentou muitos desafios, mas a gente conseguiu. Doze anos se passaram e o drag music continua forte no Brasil.

Muitas das faixas que você trouxe neste projeto fizeram parte da sua infância e agora você regravou para que chegasse para mais pessoas, além da representatividade. Como é trazer essas novas versões para uma nova geração?

É muito legal poder trazer essas músicas de volta, sabe? Nem todo mundo teve a chance de ouvir essas canções na época em que elas foram lançadas. Hoje, com a internet, a gente pode compartilhar essas músicas com todo mundo e mostrar pra uma nova geração como a música do Norte e Nordeste é rica e vibrante.

É como reviver um pedacinho da minha história e da história de muita gente. É legal pensar em todas as pessoas que cresceram ouvindo essas músicas e que agora podem relembrar esses momentos. E é incrível pensar que a gente pode apresentar esses clássicos para as novas gerações, pra que elas também possam se apaixonar por esse ritmo.

O forró é a alma da nossa cultura. E a gente precisa valorizar e preservar essa tradição. É por isso que eu me sinto tão feliz em fazer parte desse projeto. Ver artistas como a Gabi Amarantos, que eu conheço desde o começo da carreira, fazendo tanto sucesso, me enche de orgulho.

A música do Norte e Nordeste é a base da nossa música brasileira. E a gente precisa continuar levando essa cultura adiante.

Soubemos que o novo volume tem mais faixas e parcerias. O que você pode contar sobre as próximas partes do projeto?

É um álbum cheio de parcerias incríveis! Um álbum de feats mesmo, sabe? Tem várias bandas grandes de forró, muito conhecidas nacionalmente, que fazem parte da minha história. A Calcinha Preta foi só o começo. Eu tenho muitas outras surpresas por aí.

Tem muita música do Norte, regravações icônicas e também várias músicas autorais minhas. Quem gostou de ‘I Love You Corote’ vai amar esse novo trabalho. São hinos que vão te fazer dançar muito!

Tenho 25 anos, sou repórter, publicitário e obcecado pela cultura pop.