A música do Of Monsters and Men parece vir de um lugar que não pertence totalmente ao mundo real, como se carregasse um aspecto mágico. Há algo de familiar e, ao mesmo tempo, difícil de localizar nos cenários evocados pelas canções, nas vozes que se alternam e nos arranjos que ampliam o espaço ao redor das palavras. Formada na Islândia, eles construíram sua identidade a partir do encontro entre o folk, o indie rock e uma poesia que transforma experiências íntimas em memórias coletivas.
Com My Head Is an Animal (2011), a banda ganhou projeção internacional com hits como “Little Talks” e “Mountain Sound”, que levaram suas melodias para além das fronteiras nórdicas, envoltas em um véu de encantamento capaz de fazer do ordinário em extraordinário. Por trás dessa atmosfera quase cinematográfica, porém, sempre esteve algo profundamente humano, que se revela na sensação de não pertencer, no desejo de encontrar companhia e na dificuldade de compreender o que sentimos.
Essa sensibilidade também nasce das paisagens de casa, onde a beleza convive com o isolamento e a escuridão dos invernos contrasta com a luminosidade quase interminável do verão. Em entrevista exclusiva ao Conexão Pop, o vocalista Ragnar Þórhallsson explica como essa relação se manifesta. “Acho que é uma teoria interessante e acredito que seja verdade: a música de determinados lugares reflete o ambiente e as sensações que ele desperta em nós. O lugar onde vivemos nos molda e contribui para nos tornarmos quem somos, e levamos isso para a nossa música, incorporando essas mesmas características. Há algo bonito nesses espaços, mesmo quando existe escuridão. Aqui no inverno, você dorme mais e no verão, dorme menos, porque o sol simplesmente não se põe. Mas estamos acostumados a esse ritmo, e há algo reconfortante nele.“
Se o inverno ensina a habitar as sombras, reinventar-se exige olhar para dentro e reconhecer o que ainda faz sentido. Afinal, continuar fazendo música não é o mesmo que compreender por que ainda se deseja fazê-la. Desde Fever Dream (2019), último projeto de estúdio até então, o Of Monsters and Men teve seis anos para amadurecer ideias. Talvez tenha sido justamente a exploração dessas inquietações que levou o grupo a um trabalho tão atento às metamorfoses impostas pelo tempo. Em All Is Love and Pain in the Mouse Parade (2025), os músicos parecem menos interessados em corresponder às expectativas construídas ao longo da carreira do que em descobrir o que ainda têm a dizer. A obra levou cerca de dois anos para ganhar forma, em um processo que privilegiou a experimentação, respeitou o ritmo dos integrantes e permitiu que as composições encontrassem seus próprios caminhos.
A liberdade, aliás, não foi acidental. Raggi conta que eles perceberam que não era possível acompanhar o compasso frenético da indústria musical: “Não dá para entrar numa corrida para criar arte, porque não é disso que se trata. Sinto que existe muita pressão para que as bandas estejam constantemente produzindo e lançando coisas, e isso acaba sendo estressante e pouco prazeroso para nós.” Para desenvolver um trabalho genuíno, portanto, é preciso construir um ambiente que faça sentido e esteja em sintonia com suas necessidades criativas.
Conduzir esse percurso com autonomia foi um dos aspectos essenciais para o retorno. “Estávamos sem gravadora e sem empresário. A iniciativa partiu exclusivamente de nós, e isso foi uma parte muito importante do processo.” Após dezesseis anos de estrada, a sensação de ter sido um pouco esquecido também se converteu em motivação. “Você passa a ter algo a provar para si mesmo, e acho que isso nos inspirou a querer fazer este disco. Poder dedicar tempo à composição, às músicas e ao trabalho no estúdio foi muito especial.”
Essa perspectiva também orientou a maneira como lidaram com as letras, preservando as particularidades de cada etapa da criação. Raggi cita “Television Love” como exemplo e explica que há alguns anos de diferença entre o momento em que ele escreveu sua parte e aquele em que Nanna (vocalista e violinista) desenvolveu a dela. Em vez de revisar continuamente as faixas em busca da perfeição, a banda preferiu respeitar o que havia surgido em cada fase. Assim, All Is Love and Pain in the Mouse Parade acabou assumindo a forma de um diário, reunindo pensamentos e emoções que acompanharam os membros ao longo dos últimos anos.
Entre os rabiscos que desenham essa crônica, “The End” é um dos mais inquietos. A música retrata a angústia de se perguntar “Onde está o mundo?” e “Para onde estamos indo?”. Em um cenário marcado pelo ódio, pelas tensões políticas e pelo ruído constante amplificado pelas redes sociais, não há busca de respostas fáceis, mas a tentativa de processar tudo o que acontece ao nosso redor. Para Ragnar, canalizar essas inquietações em acordes é uma forma de não sufocar: “Quando tiramos algo da cabeça e colocamos no papel, aquilo deixa de ser um conflito tão grande dentro da nossa mente. É bom registrar essas coisas e, quando você as transforma em uma música que outras pessoas também podem ouvir, isso se torna muito terapêutico.” A tinta, afinal, não é apenas vestígio do processo criativo, mas registro de um mundo instável que, aos poucos, encontra na arte um jeito de ser compreendido.
Enquanto isso, “Ordinary Creature” é uma de suas páginas mais reveladoras. “Os versos falam sobre voltar a ser quem você era, reencontrar a si mesmo depois de um período em que você perdeu o rumo”, diz þórhallsson . “A inspiração veio dos anos anteriores, de viver a vida e passar por seus altos e baixos.” Sobre a sonoridade, ele acrescenta: “Ela começou como uma balada lenta ao piano, mas acabou mudando bastante no estúdio, onde experimentamos muitas coisas diferentes. Queríamos simplesmente nos divertir com ela, então a versão final ficou completamente diferente da ideia inicial.”
O olhar atento ao cotidiano também se volta para pequenas criaturas que costumam passar despercebidas. Em “Mouse Parade”, os ratos deixam o sótão e assumem o protagonismo de uma analogia sobre sobrevivência e coletividade. A imagem que dá título ao disco surgiu durante as gravações: com a demolição de prédios nas redondezas, os roedores começaram a aparecer com frequência ao redor do estúdio, movendo-se em uníssono e enfrentando, a cada instante, uma questão de vida ou morte. A convivência despertou em Ragnar uma nova ótica: “Às vezes, esquecemos os problemas maiores e nos concentramos em nossas pequenas preocupações, que, na verdade, nem chegam a ser problemas. Então, há muito o que aprender com os ratos.” Durante nossa conversa, entre risadas, o vocalista acolheu a sugestão de reunir a banda para assistir a Ratatouille juntos — algo que ainda não haviam feito.
Talvez a maior lição desses pequenos habitantes seja justamente esta: ninguém atravessa o mundo inteiramente só. Na trajetória do Of Monsters and Men, os laços que resistem à distância também ajudam a dar sentido à caminhada. Em All Is Love and Pain in the Mouse Parade, a comunidade não aparece apenas como tema, mas também como parte da experiência que deu origem à obra. “Este álbum tem muito a ver conosco, é um pouco sobre a nossa comunidade, sobre a nossa família.”
A pausa imposta pela pandemia de Covid-19 permitiu que os integrantes se reconectassem com suas raízes na Islândia, fortalecendo os vínculos com as pessoas que fazem parte de suas vidas para além dos palcos. Esse sentimento ganhou forma em “Live from Skarkali“, sessão intimista que marcou a primeira vez que apresentaram as novas músicas a familiares e amigos. “Essa perfomance foi o começo perfeito para essa turnê. Elas estão sempre reorganizando suas vidas por nossa causa, então, sabe, como estamos sempre na estrada e em movimento, foi muito especial poder compartilhar com elas um show intimista”, lembra Raggi, que também viveu um momento inesquecível com o pai em “Styrofoam Cathedral”. “Eu sempre toco as músicas para os meus pais, e meu pai chegou até a tocar guitarra em uma das canções. Tocamos juntos, então foi muito especial.”
Um oceano pode até adiar um encontro, mas nem sempre diminui a expectativa por ele. A volta ao Brasil é aguardada com muito entusiasmo. Nos dias 25 e 26 de novembro, duas apresentações com ingressos esgotados na Audio, em São Paulo, marcarão esse regresso. “Estamos muito animados para voltar! Já faz um tempo, e sabemos que vamos receber muito carinho de vocês.” Para que a turnê finalmente se concretizasse, foi preciso superar alguns desafios: “Estávamos tentando fazer isso acontecer, porque sair em turnê é diferente do que era antigamente, e havia muitas coisas que precisávamos organizar da maneira certa. Mas, no fim, conseguimos, e não poderíamos ter escolhido um jeito melhor de encerrar esse ciclo.”
Serão as últimas apresentações de All Is Love and Pain in the Mouse Parade por um período, e os vikings parecem ter encontrado na energia brasileira a companhia ideal para essa despedida. “O público de vocês é o melhor, e estamos muito felizes, porque sabemos que esses shows vão nos deixar com uma sensação maravilhosa.”
O reencontro entre si foi igualmente nutrido pelas vivências que cada músico acumulou fora do grupo. Na visão de Ragnar, explorar trilhas criativas distintas não representou um afastamento da identidade construída coletivamente, mas sim a descoberta de outros prismas para impulsioná-la adiante. “Aprendemos bastante quando mudamos de ambiente, e acabamos trazendo algo diferente para a banda. Quando suas experiências são sempre as mesmas, você acaba ficando sem ter muito o que compartilhar. Mas, quando faz outras coisas — como acontece com um casal em que cada pessoa tem experiências diferentes ao longo do dia —, sempre há algo para conversar à noite. Tornou todo o processo divertido.”
A pluralidade estimulou discussões, ampliou horizontes e fez das memórias matéria-prima. Essa abertura se estendeu também a nomes como Christopher Lowe e outros amigos que acompanharam tudo de perto: “Foi muito bom abrir nosso universo para eles e, assim, obter novas perspectivas sobre as faixas.”
Essa mesma disposição para acolher diferentes olhares se reflete no modo como as melodias encontram morada na vida de quem as escuta. Ao falar sobre as interpretações compartilhadas pelos fãs, Ragnar destaca que a conexão nem sempre depende de compreender uma letra em sua totalidade: “Sinto que isso aconteceu muitas vezes, e acho que tem mais a ver com a forma como nos conectamos com a vida das pessoas. Afinal, as emoções humanas são universais, e todos passamos pelas mesmas dificuldades, ainda que de maneiras diferentes.” Durante a turnê, esses relatos ganharam um significado especial: “Muitas pessoas têm nos contado que nossa música as ajudou a atravessar momentos difíceis, e isso significa muito para nós, porque compô-las também nos ajudou a superar tempos complicados.”
Há também algo de extraordinário em perceber que uma música pode passar dez anos em silêncio e, ainda assim, voltar inteira: cada palavra, cada sorriso e cada lágrima que ela provocou permanecem vivos em nós. “Esta é a primeira turnê em que as pessoas vêm até nós e dizem que nos escutavam quando eram crianças. É algo surreal! Parece que foi há pouco tempo que eu mesmo era criança, mas agora essas pessoas já são adultas.” Nessa constatação, o assombro se mistura à gratidão — e talvez resida aí a grande fábula por trás do Of Monsters and Men: na capacidade de transformar emoções em canções que acompanham as rugas dos anos e viajam por gerações, ensinando que, apesar das distâncias e das diferenças, existem sentimentos que continuam a nos aproximar.
SERVIÇO – Of Monsters and Men em São Paulo
Data: 25 de novembro de 2026 (quarta-feira)
Local: Audio (Av. Francisco Matarazzo, 694 – Água Branca, São Paulo – SP, 05001-100)
Horários: Portas 20h / Show 21h30
Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal
Data: 26 de novembro de 2026 (quinta-feira)
Local: Audio (Av. Francisco Matarazzo, 694 – Água Branca, São Paulo – SP, 05001-100)
Horários: Portas 20h / Show 21h30
Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal
*Por Luana Murakami





