Em 1976, na efervescência punk de Los Angeles, cinco adolescentes — Joan Jett, Cherie Currie, Lita Ford, Sandy West e Jackie Fox — subiram ao palco como The Runaways. Com apenas dezesseis anos, vestiam jaquetas de couro, correntes e maquiagem borrada como armadura. Quando Cherie soltou o clamor de “Cherry Bomb”, direto da garganta de uma garota que mal saíra da escola, as guitarras afiadas de Jett e Ford explodiram em distorção, enquanto a bateria de Sandy martelava como uma britadeira. Elas não eram uma curiosidade que imitava ídolos masculinos, eram revolucionárias. A resposta, no entanto, foi quase instantânea. Sob os olhares de um público majoritariamente masculino, dezenas de latas de cerveja começaram a voar do fosso, quebrando o silêncio entre as músicas. Era um recado primário e inequívoco: vocês não pertencem a este lugar.
Esse episódio não foi uma exceção na história do rock, era a regra. O gênero que se autoproclamava “rebelde” sempre teve uma hierarquia rígida, e os talentos femininos estavam no degrau mais baixo. Eram bem-vindas como musas, backing vocals ou namoradas de guitarristas. Mas protagonistas? Só se fossem uma anomalia, uma excentricidade, jamais uma força legítima. Blondie, com Debbie Harry à frente, foi reduzida a “loirinha da banda”, mesmo quando sua música fundia punk, disco e rap de forma inovadora. As Slits eram chamadas de “garotas que não sabiam tocar”, embora criassem um dos sons mais radicais da cena underground.
Porém, se a cartilha previa que, cinquenta anos depois, as mulheres ainda estariam pedindo licença, ninguém avisou Los Bitchos. Elas são a prova de que o rock é apenas uma sílaba em seu dicionário — chicha peruana, pop e psicodelia turca se embaralham numa língua musical sem fronteiras. Com a australiana Serra Petale na guitarra, a sueca Josefine Jonsson no baixo e a inglesa Nic Crawshaw na bateria, elas fundem heranças para abraçar todas as tradições.
O contraponto às latas do passado não é o punho cerrado, mas a mão aberta em convite à dança. Enquanto a indústria esperava a submissão, elas entregaram cumbia; enquanto esperavam angústia, elas entregaram groove. É com essa leveza que ocupam a pista, sabendo que o ritmo sempre foi mais forte que o rancor.
Após dois discos aclamados — Let The Festivities Begin! (2022) e Talkie Talkie (2024) — e uma década de turnês que as levou do Coachella ao Glastonbury, a banda escreve este capítulo em busca de expandir o próprio universo. Incorporar colaboradores vocais pareceu, surpreendentemente, um movimento natural. “Pensamos: agora é o terceiro, como trazer algo novo e interessante para os nossos ouvintes?”, recorda Josefine. Dessa inquietação nasce um projeto que, no dia 13 de novembro, chega às plataformas para celebrar encontros.
Como explica Serra: “O álbum tem algumas faixas instrumentais para manter os fãs de longa data felizes, mas, em muitas delas, optamos por co-compositores e colaboradores, porque essa é a essência de Los Bitchos and Friends.”
Com participações empolgantes de Adrian Quesada (Black Pumas), Chicha Libre e Ambrose Kenny-Smith, a curadoria foi um jogo de intuição e afeto: “Estamos trazendo amigos de turnê, gente que acabamos de conhecer e alguns que contatamos às escondidas, nunca nos vimos pessoalmente, só gostamos da vibe e da música deles”, contam, entre sugestões do empresário e palpites que surgiam do nada, onde a regra era: “às vezes a gente ouvia alguém e pensava: Por que não?”
Todo o processo criativo flagra o grupo em seu momento mais ousado. A dinâmica partia de um gesto de confiança: elas levavam a demo ao limite e, então, a entregavam ao músico convidado para que deixasse ali sua própria assinatura — algo que ficou evidente já no primeira tentativa com Quesada, em “Hang Up (Pt 2)”.
“Mandamos uma versão já sólida da música, e ele basicamente a desmontou por completo, devolvendo algo totalmente diferente”, observa Jonsson . “Não estávamos preparadas, mas ali entendemos que a chave era ter a mente aberta.” O resultado é um funk à la William Onyeabor com vocais em falsete e um refrão tão viciante que já soa como hit.
Essa virada exigiu uma completa reconfiguração de linguagem. “Somos instrumentais, essa é a nossa identidade. Tudo começa como se fosse só a gente tocando. A guitarra principal, que sou eu, geralmente carrega a melodia. Nossa voz, na verdade, são os instrumentos”, destaca Petale. Com a entrada dos vocalistas, foi preciso aprender a abrir espaço: “Tivemos que adaptar parte da composição para não competir com eles.”
Entre as nove faixas, “Holding Cell” é a que chega como um golpe certeiro. “É definitivamente empolgante lançar este single junto com o anúncio do álbum, porque é um baque, é um soco tão forte, não é?”, diz Nic com um sorriso. O que torna essa história ainda mais fascinante é que esse impacto não nasceu de um plano pré-estabelecido, mas de uma série de acasos que levou a banda a experimentar uma direção inusitada.
Tudo começou com uma Coca-Cola. Serra estava imersa naquele diálogo íntimo com as vibrações que saíam de seu instrumento, imaginando ruídos em possibilidades. Foi quando, discretamente, pegou o refrigerante — um pequeno vício que decidiu imortalizar no título provisório da faixa. “Vou chamar de Coca-Cola, que se dane”, pensou. “Holding Cell é uma das faixas mais pesadas do novo álbum e, meu Deus, acho essa música tão boa. Foi um verdadeiro presente, porque às vezes você acha que tem uma boa ideia, mas bate num beco sem saída. Mas, essa simplesmente saiu de mim, e fiquei tão animada para mostrá-la às meninas. Tinha um pressentimento muito bom, e isso foi até quando era apenas instrumental.”
Por mais sólida e eletrizante que a canção soasse, ainda havia um vazio ali. O nome que surgia nos rascunhos era Ambrose Kenny-Smith — uma das mentes mais versáteis da psicodelia contemporânea. Mais que um amigo de turnê, ele é uma força da natureza, que transita entre o uivo e o canto com uma naturalidade desconcertante. Só havia um grande obstáculo: sua agenda concorridíssima. Além do King Gizzard & the Lizard Wizard, que lança discos em velocidade supersônica, ele ainda tem o The Murlocs e projetos paralelos com Jay Watson. Por isso, Petale foi realista: “Isso nunca vai rolar.”
Mesmo assim, numa noite qualquer, ela abriu o Instagram e mandou uma mensagem. Não contou para ninguém. “Caso fosse uma decepção, eu não queria criar esperanças”, admite, com a honestidade de quem já aprendeu a dosar expectativas. Até que a resposta veio na hora. Ambrose topou. Disse que estava ocupado naquela semana, mas que veria o que podia fazer. A guitarrista ficou naquela tensão silenciosa: “porque você nunca sabe se a pessoa vai voltar com algo ou se você nunca mais vai ouvir falar dela” e seguiu a vida.
Era um domingo quando o celular vibrou. Smith, com algumas horas vagas, fez uma gravação improvisada — não num estúdio, mas no próprio telefone, com todo o ruído ambiente incluído — e enviou: “O que achou?” Serra ouviu e, sem conseguir conter o entusiasmo, respondeu: “MEU DEUS, isso é incrível!” O que ela não esperava era que aquela gravação bruta escondia vocais entregues com a precisão de quem sabia exatamente o que queria. “É uma das minhas faixas favoritas do álbum, eu me emocionei”, afirma, ainda sentindo o impacto. Ao compartilhar com Josie e Nic, foi unânime. Ambrose acabara de transformar “Coca-Cola” em algo épico.
Esta abertura para os colaboradores, porém, foi apenas o começo. “Uma grande parte do processo foi ouvir os artistas que participaram do álbum.”, contempla Crawshaw. “Acho que o que marca é o quanto fomos profundamente influenciadas por eles. Este disco é sobre conhecer pessoas, fazer amizades, compartilhar música, compartilhar culturas e crescer a partir dessas trocas. Somos de diferentes partes do mundo, e a banda sempre foi sobre nos abrirmos para ouvir todo tipo de música. Esperamos que todo mundo se sinta bem-vindo em um show do Los Bitchos.”
Se a essência está nessa troca coletiva e calorosa, cada faixa também guarda suas próprias particularidades. Foi neste movimento de espelhos que uma das inspirações de “Holding Cell” surgiu do lugar mais improvável: Lil Peep, o ícone do SoundCloud morto aos 21 anos, com tatuagens no rosto e uma estética melancólica que definiu uma geração. “Ele tem uma música de violão bem deprê que me lembrou a vibe”, reconhece Petale. Não é uma conexão óbvia para um trio de fusão latina e psicodelia turca, mas ela insiste: assistiu a um vídeo dele na Rússia, andando em jipes com um casaco de pele, e usou aquela imagem como referência de mixagem — a textura, a densidade, a sensação de isolamento e grandiosidade ao mesmo tempo. “A forma como eu referencio é meio assustadora, tipo, inventei isso, mas não inventei, juro que ouvi algo”, admite, rindo da própria obsessão.
Essa rendição ao novo não diluiu a banda — pelo contrário, solidificou-a numa discografia que, nas palavras de Jonsson, é “uma grande reviravolta. Definitivamente é um pouco mais sombrio, místico e sério. Vai surpreender as pessoas, mas de uma forma muito boa”. Serra complementa, revelando que, pela primeira vez, assumiu a co-produção — uma evolução natural para quem, em seu primeiro trabalho, via a distância entre a demo e o produto final como “dia e noite”. Agora, com a visão mais nítida, esclarece: “Era importante para mim ter a clareza do que as demos propunham e garantir que a ideia se casasse perfeitamente com o resultado final.”
As vozes dos instrumentos já são tão distintas que poderiam ser consideradas personagens por si só. Porém, o que mais poderia caber nesse jardim sonoro? Lançada como brincadeira, a questão revela camadas inéditas.
Nic, sem hesitar, pede percussão afinada: “Marimbas, ou até nas músicas mais sombrias, vibrafones, porque dá uma textura e uma vibe meio melancólica. Eu aprendia percussão afinada quando era criança e adorava. Não é algo que continuei fazendo, então perdi essa habilidade, mas é incrível. Eu simplesmente amo esse som.” Já Josie, sonha com baixos sintetizados, um flerte com o eletrônico que já se anuncia nas entrelinhas do novo projeto. “Eu realmente adoraria fazer isso. Adoraria ter uma estação onde eu pudesse tocar baixo, mas, para certas músicas, mudar para outros instrumentos.”
Serra, por sua vez, mira numa seção inteira de metais e sopros: “Não consigo tocar instrumentos de sopro, nunca foi algo que eu consegui fazer, e adoraria poder adquirir essa habilidade. Acho incrível o que se pode fazer mesmo com um trompete.” Após 9 anos na estrada, elas seguem em expansão: movidas não pela necessidade, mas por pura curiosidade.
Los Bitchos & Friends Vol. 1 é uma roda aberta a quem quiser entrar — a coreografia é coletiva, e dançar é verbo e destino. Enquanto a indústria ainda tenta encaixar mulheres em rótulos, elas simplesmente existem em comunidade. Da hostilidade enfrentada por aquelas cinco adolescentes em Los Angeles aos holofotes do Coachella, meio século separa as duas cenas, mas a pergunta persiste: a quem pertence o palco?
A resposta, para elas, está no espírito de um trio que transformou o rock em uma pista onde todos, enfim, se sentem em casa.
*Por Luana Murakami
