O que define uma popstar? Quando pensamos nos ingredientes que imortalizam essas artistas revolucionárias da indústria, imediatamente evocamos Britney Spears e sua capacidade de fazer e ser um espetáculo. No início dos anos 2000, o pop parecia cercado por uma espécie de encanto: videoclipes cinematográficos, coreografias icônicas, figurinos extravagantes e uma estética capaz de transformar qualquer lançamento em um acontecimento. De Aaliyah, com sua presença etérea e sofisticação, ao Destiny’s Child, que se afirmava como fenômeno global, elas não apenas conquistavam as paradas, mas construíam universos que influenciavam a arte, a moda e o imaginário de toda uma geração.
Deixar uma marca na cultura é mais do que alcançar o sucesso: é ter coragem para explorar diferentes facetas de si sem se prender a uma única imagem. É sob essa perspectiva que Natanya constrói ATTITUDE ERA! (2026), seu mais novo e ambicioso álbum. Aos 24 anos, a cantora nascida em Wembley, no noroeste de Londres, cresceu entre as influências de um pai nigeriano criado ao som da Motown e de uma mãe indo-trinidadense que enchia a casa de calipso. Iniciada no piano clássico aos quatro anos, ela converteu essa bagagem em uma sonoridade em que neo-soul, indie e R&B se encontram e se reinventam.
Mas essa identidade não é apenas uma escolha estética: também é uma resposta às expectativas que recaem sobre figuras femininas, em que a individualidade muitas vezes cede espaço a uma persona moldada para o consumo. Quatro anos após seu primeiro single, “Foolish”, o novo disco surge como o ponto em que essa liberdade criativa assume seu contorno mais nítido. E é a própria Natanya quem desmonta os estereótipos: “Sinto que as mulheres não são incentivadas a ter atitude suficiente nesta indústria — e não digo isso no sentido convencional. Vejo isso como abraçar diferentes versões de si. Permitir-se ser uma pessoa tridimensional, em vez de uma personagem. Temos um repertório de vivências incrível.”
A britânica visualiza sua coletânea como uma sequência de capítulos que retratam quem era em diferentes momentos da vida e, ao revisitar esse percurso, reconhece uma trajetória amarga marcada por contrastes. Sorrow at Sunrise (2023) e ATTITUDE ERA! são, em sua definição, obras-irmãs: “As duas têm uma natureza livre e exploratória. S.A.S. nasceu de um período realmente terrível da minha vida. Eu estava explorando as profundezas de uma tristeza visceral e da insegurança em relação a mim mesma.”
“Attitude Era, por outro lado, explora as profundezas de uma autoconfiança visceral que eu realmente senti enquanto o criava. Eu sentia, de verdade, que tinha algo nas mãos capaz de mudar o rumo em que o mundo estava girando. Nas letras, nas melodias, na produção, nos acordes. E o álbum soa assim. Estou simplesmente correndo a toda velocidade ao longo dele.”, confessa em entrevista exclusiva ao Conexão Pop.
Algumas faixas acabaram ganhando um peso especial ao longo da produção. SHOW ME RIGHT! se destaca por um segundo verso que Natanya considera um dos seus favoritos de todos os tempos, e Hush acabou sendo a que mais a surpreendeu. “Coloquei o coração em muitas das músicas. Eu estava vivendo um sonho enquanto criava.”
Já em Feline’s Return (2024), a dor ganha sua própria linguagem, deixando de ser fraqueza para se tornar partitura. “Eu estava tentando superar muitas dificuldades. No início da minha carreira, tive uma equipe realmente tóxica. Eu era apenas uma menina que tinha acabado de sair da escola e não recebi os cuidados que deveria ter recebido por parte deles. Feline’s Return foi a maneira que encontrei de usar a música para me tirar do buraco em que me encontrava depois que eles me abandonaram. Há um nível de precisão quase acadêmico em cada música, porque eu sentia a obrigação de aperfeiçoar tudo para, de uma vez por todas, colocar minha trajetória no rumo certo.”
Cada detalhe parece responder à necessidade de recolocar o próprio chão no lugar, fazendo da arte um modo de sobrevivência. “Desde todas essas fases, venho me transformando em uma pessoa diferente. Esta é a minha Attitude Era, mas estou amadurecendo. Já conheci boa parte do que há de melhor e também muitas coisas ruins. Hoje, falo abertamente tanto sobre minha autoconfiança quanto sobre meus medos. Acredito que isso será muito importante para o meu futuro. Acredito em mim mesma como nunca, mas aceito que preciso ter paciência até que toda a minha visão se concretize. Enquanto isso, estou aproveitando a jornada tanto quanto o universo me permitir!”
Existe, na história da música britânica — dos artistas que redefiniram o pop aos movimentos underground que depois contaminaram o mainstream —, um espírito persistente de experimentação. Natanya o reconhece como parte de si: “Com certeza. Sinceramente, duvido que eu fosse Natanya sem a minha identidade britânica. Minha escrita seria diferente, e minha experimentação com diferentes estilos de produção musical seria um pouco mais tímida.” Formada em ELO, The Beatles, Wings, Led Zeppelin, The Sundays, Sade e Bowie, ela faz dessa herança um motor artístico e resume tudo em uma frase: “Nós adoramos inventar.”
Bowie nunca pediu licença para existir. Em 1969, lançou Major Tom ao espaço em “Space Oddity”; três anos depois, fez de Ziggy Stardust um mensageiro extraterrestre do fim do mundo e, com ele, popularizou o glam rock. Aladdin Sane radicalizou a persona e a levou ao limite da intensidade das turnês, enquanto o Thin White Duke trouxe a elegância minimalista e a escuridão de Station to Station. Depois vieram a trilogia de Berlim e o pop irresistível de Let’s Dance, cada fase sucedendo a anterior sem anulá-la. Ao descobrir “Heroes” na trilha sonora de As Vantagens de Ser Invisível, a jovem de Londres encontrou uma lição que carregaria para sempre: “Ele simplesmente deixou claro que absolutamente tudo era possível. Tornou-se muito maior do que a própria história de suas origens. Isso é épico.”
Essa identidade em movimento — feita de muitas fases, referências e versões de si — também passa pelo Brasil. Para Natanya, a música brasileira não é apenas influência: é uma vizinhança cultural riquíssima, que dialoga diretamente com Trinidad e com sua própria ideia de inovação. “EU AMO MPB. João Bosco é meu rei e Leila Pinheiro, minha rainha. Jade, Papel Machê, A Porta são canções lindas. Sou de Trinidad, que fica logo ali ao lado e tem muitas semelhanças culturais com o Brasil. Sempre fui apaixonada pela música brasileira em todas as suas formas!”
E se a tropicalidade mostrou que a originalidade pode ter calor e memória, o cinema lhe ofereceu cenários para habitá-la. “Assisti a MUITOS filmes. Amo cinema, mas fiquei obcecada pela Hollywood clássica, por comédias de terror como Carrie e The Rocky Horror Picture Show, e por filmes do estilo gótico sulista americano”, conta. Em ATTITUDE ERA!, essas influências aparecem como atmosfera: o glamour, a teatralidade da Hollywood clássica e a penumbra do gótico sulista. É desse caldeirão de imagens que nasce boa parte da dramaticidade da obra — como se cada composição fosse também um curta-metragem sobre as múltiplas facetas de si.
Para a cantora, o futuro não é uma promessa a ser cumprida, mas uma paisagem que se revela à medida que ela avança. “Amo música de tantas formas diferentes, e minha mente está constantemente imersa nela. No estúdio, adoro explorar ao máximo minha criatividade. Não tenho a missão de trazer o passado de volta. Aos poucos, estou descobrindo o que o futuro significa para a minha música, canção por canção”, afirma. Enquanto se prepara para levar ATTITUDE ERA! em turnê, a popstar segue perseguindo o desconhecido, como se cada melodia abrisse um horizonte que, até então, ela não sabia existir.
Essa busca também carrega o desejo de um alcance mais íntimo. Natanya quer que as meninas que escutam suas músicas encontrem nas canções o ímpeto necessário para se lançarem ao mundo, sem que a hostilidade e o julgamento lhes subtraiam a vontade de se expor. Numa sociedade que ainda resiste à presença das mulheres nos palcos que elas ocupam, dar o primeiro passo pode ser, por si só, um gesto de insubordinação. “Tudo isso pode fazer com que a gente se feche, mas precisamos lutar contra isso.”
Talvez por isso o imaginário das grandes popstars continue tão poderoso: por trás dos figurinos, das personas e dos espetáculos, existem trajetórias que desafiam qualquer tentativa de definição . Natanya conhece o encanto dessas metamorfoses, mas não deseja habitar uma trama escrita por outros. Carrega consigo os ecos de suas referências e quer descobrir o que sua própria voz ainda é capaz de revelar. E, quem sabe, seja justamente nesse processo que sua própria ideia de grandeza começa a tomar forma.
Escute ATTITUDE ERA! e mergulhe no universo musical de Natanya
*Por Luana Murakami





