Talvez o mal do homem seja criar expectativas, e tem sido assim desde que Vita Pereira saiu do grupo Irmãs de Pau para seguir carreira solo. E como seria essa expectativa? Bem, não se cria nenhum tipo de comparação com outros trabalhos, principalmente quando falamos de corpos trans. Nem vou entrar no mérito da Anitta, que está em outro patamar, tanto em dinheiro quanto em acesso, o que naturalmente faz com que tudo funcione de uma forma diferente.
A minha expectativa era de um álbum bem lírico, talvez na linha de “5Estrelas”, da Candy Mel, ou até mesmo “Rito de Passá”, da MC Tha. E o mais interessante é justamente ser surpreendido e perceber que suas expectativas podem ir além do que você imaginava, o que acontece com “VITA’S HOUSE”, o primeiro álbum solo de VITA.
Com 17 faixas e produções bem trabalhadas, o álbum gira em torno do conceito de que a casa da Vita é o próprio corpo. Tudo que existe dentro desse espaço representa sua personalidade, suas vivências e tudo que ela tem a dizer sobre si mesma e sobre aquilo em que acredita, seja sexualidade, religião ou gênero.
O single “VITA’S HOUSE” foi só um gostinho do que vinha por aí. Faixas como “MARRETADA”, produzida por DJ Caio Prince e DJ Sant, trazem uma mistura de diversão, desejo e ainda ajudam a construir essa casa de forma sólida e cheia de identidade.
“Quando decidi me aprofundar na música eletrônica e no house, percebi diversas intersecções com a história da cultura ballroom, do funk e do dancehall. Esse álbum é político, pois tomamos de volta tudo que sempre foi nosso”
Vita
Com diferentes ritmos, Vita não só transita pelo house, como também passa pelo mandelão, funk, EDM e até pelo ragga. Na faixa “VEM PRO RAGGA”, com participação de Scof Savage, temos uma grande surpresa. A música te joga em uma atmosfera deliciosa, daquelas que fazem você querer simplesmente dançar sem pensar em mais nada.
E não dá pra negar que, nas participações e colaborações, Vita foi extremamente estratégica e inteligente. Ela soube agregar nomes fortes e relevantes dentro de suas cenas. Badsista, por exemplo, assina produções importantes e já construiu narrativas ao lado de Linn da Quebrada. E a própria Linn, que revolucionou a música brasileira com “Pajubá”em 2017, aparece aqui como uma continuidade de histórias e caminhos que foram abertos.
Em “Ainda Há Verá Verão”, o jogo de palavras, marca registrada da Linn, se mistura com a identidade da Vita de forma muito natural. Ao mesmo tempo em que Vita imprime sua personalidade, ela também reconhece e valoriza esse legado. O resultado é algo potente, quase divino, e com um impacto que realmente chama atenção.
Finalizar um álbum nunca é tarefa fácil. Existe sempre o desafio de manter a coesão, ter algo a dizer e ainda encerrar de um jeito que não canse o ouvinte. E aqui entra “TREME A LÍNGUA”, talvez uma das melhores faixas do projeto. Logo no início, a gente é surpreendido pela voz doce da Candy Mel, uma das grandes responsáveis por abrir caminhos no pop brasileiro sendo uma das primeiras artistas trans a alcançar o mainstream.
Se no começo do álbum, em “SANTO FORTE” com produção de Delcu e JLZ, Vita pede proteção, aqui ela já aparece protegida, cercada pelas suas e recebendo todas as bênçãos possíveis. É como se o conceito se fechasse por completo. Seu corpo está seguro, sua casa está firme e tudo que ela construiu, sua personalidade, sua mente e sua arte, estão totalmente integrados nesse espaço.
Urias também foi convidada para essa casa. Conhecida por sempre roubar a cena em seus versos, como em “KAWASAKI”, “VTNC” e até em “Perfume” com Kaya Conky, aqui em “OUT OF MY HOUSE” ela não brilha tanto quanto o esperado. Acaba sendo uma participação mais morna, mesmo carregando um grande nome dentro do álbum.
No geral, “VITA’S HOUSE” tem tudo para se consolidar como um grande projeto. As produções são bem trabalhadas, os conceitos são bem amarrados e o visual acompanha essa entrega. Para um álbum de estreia, é uma escolha segura. Já nas composições, Vita ainda se mantém um pouco mais limitada em alguns momentos, repetindo ideias e versos mais do que deveria.
Mas, no fim, esse é o tipo de álbum em que a gente nem sempre quer entender tudo. Às vezes, a gente só quer sentir. E “VITA’S HOUSE” é exatamente isso, um álbum de sentimentos.
Faixas para prestar atenção: MARRETADA, TREME LINGUA, SANTO FORTE, AINDA HÁ VERÁ VERÃO E VEM PRO RAGGA.
Ouça “VITA’S HOUSE” em todas as plataformas digitais.
