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Crítica: Olivia Rodrigo entrega seu disco mais maduro e honesto em “You seem pretty sad for a girl so in love”

(Foto: Reprodução/ Christopher Polk, Maya Sarin, Hillary Siskind e Live Nation Entertainment)

Existe um tipo de disco que funciona como diário. Não o diário performático, construído para parecer íntimo, mas aquele em que cada faixa carrega o peso real de algo que aconteceu. “You seem pretty sad for a girl so in love” é esse tipo de trabalho. O terceiro álbum de Olivia Rodrigo acompanha o relacionamento da cantora com o ator Louis Partridge do começo ao fim: da euforia de se apaixonar até o momento em que tudo desmorona. E o que ela faz muito bem, uma das marcas mais valiosas de uma artista pop, é transformar experiências pessoais em algo que o ouvinte reconhece como seu.

As músicas

O disco abre com Drop Dead, chiclete imediato com DNA parecido ao de Hot to Go!, de Chappell Roan, o que faz sentido: ambas têm o mesmo produtor, Dan Nigro. Quem escuta também vai lembrar de Don’t Delete the Kisses, do Wolf Alice. É uma entrada certeira que estabelece bem o tom do que vem a seguir.

A influência mais presente ao longo do álbum, no entanto, é The Cure. Ela aparece de forma mais explícita em Maggots for Brains, faixa inspirada em Sex and the City que mergulha em dependência emocional com uma pegada de rock que destoa positivamente do restante. O peso, a melancolia e a construção de atmosfera têm a impressão digital de Robert Smith por toda parte, e não é à toa: em What’s Wrong with Me?, o próprio Robert Smith aparece ao lado de Olivia numa das parcerias mais simbólicas do álbum, enquanto ela canta sobre não conseguir comer, dormir ou parar de pensar. O sofrimento aqui é físico, não só emocional.

Outras referências aparecem de forma igualmente orgânica. My Way é onde No Doubt surge com clareza, influência que Olivia sempre assumiu abertamente. Já U + Me = ♡ soa como se tivesse saído direto de uma rom-com dos anos 2000, com aquela inocência meio Sixpence None the Richer que funciona exatamente pelo que é: simples e completamente entregue ao sentimento.

O fio emocional do disco se aperta em Purple e The Cure, os momentos em que o relacionamento começa a rachar de vez. Purple é a faixa mais diferente da carreira dela, cheia de metáforas e com uma vulnerabilidade que pesa. The Cure, segundo single, é um dos pontos altos absolutos: produção impecável, referências à banda favorita do ex-namorado e uma energia próxima de Can’t Catch Me Now, que Olivia assinou para a trilha de Jogos Vorazes. O trabalho audiovisual acompanha na mesma altura.

Na reta final, Less para tudo com um verso só: “If loving me means letting go and wishing me the best / then I guess / I wish, I wish, I wish you loved me less.” Expectations alivia um pouco o peso com a Olivia azeda e divertida que os fãs adoram, listando tudo que não vai tolerar num relacionamento. E Cigarette Smoke encerra com arrependimento e cansaço, a aceitação de que esse amor talvez nunca devesse ter existido.

O veredicto

You seem pretty sad for a girl so in love é o disco mais adulto e honesto da carreira de Olivia Rodrigo. Ela abandona as quatro letras no título, troca a identidade visual roxa e aceita desafios que antes evitava.

Ainda há espaço para ir mais longe: o álbum sente falta de uma Olivia com mais raiva, daquela que abria Sour com Brutal na garganta ou que destrinchava contradições femininas em All American Bitch. Guitarras distorcidas, ironia afiada e aquela energia quase punk que ela domina tão bem quando quer, tudo isso aparece em doses menores do que o disco pedia. O único ruído da era está fora da música, num estilo visual que ainda não encontrou equilíbrio. Mas musicalmente, ela entrega sua versão mais crua. E isso, por si só, já é muito.

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