Em um certo momento, parecia que a música pop estava presa em conceitos rasos e sem emoção. Vivíamos de refrões viciantes pensados para viralizar em vídeos curtos, acompanhados de dancinhas aleatórias e transições feitas só para agradar o público geral. Mas essa maré começou a mudar quando alguns artistas passaram a entregar discos carregados de vivências reais e significados profundos. É nesse cenário que surge Icona Fantasy: Manifesto, o primeiro álbum de estúdio de Icona Pink.

Muita gente pode dizer que nunca ouviu falar de Icona Pink, mas talvez seja hora de prestar atenção. A artista chega de maneira independente, com atitude, e ainda convida nomes como Katy da Voz e As Abusadas e Linn da Quebrada para participar de sua estreia oficial. Mesmo já tendo trabalhado com As Abusadas antes, trazê-las novamente em uma fase mais madura mostra evolução tanto nas letras quanto em faixas como “Bixa de 7 Cabeças” e a narrativa que funciona como uma interlude, “Maria Madalena”.
O álbum começa com uma narração de Linn da Quebrada, figura que Icona admira declaradamente. “SANTA KALI” abre com força e carrega um clima de celebração ao talento de Lina Pereira, reconhecendo seu impacto na cena e sua importância na formação de novas artistas. A faixa eleva a expectativa do ouvinte logo nos primeiros minutos.
Na sequência vem “Baleia”, o primeiro single. Com produção caprichada e letra divertida que valoriza a autoestima, é a música que mais se distancia do conceito religioso presente no álbum, mas mantém o brilho.
A mais intrigante talvez seja “Segredos do Vaticano”. Composta por Ariel Caê e Icona Pink, a faixa entrega uma das melhores produções do disco, também assinada por Ariel com co-produção de FUSO. É daquelas músicas que terminam e te fazem apertar o replay sem pensar duas vezes.

Em “Pinóquio”, Icona divide a composição com Gabriel Renné, mais conhecido por seu trabalho na fotografia. A música cria um clima de espetáculo, com a persona “Falsie” conduzindo a narrativa, como se o ouvinte estivesse no picadeiro. Apesar da proposta interessante, não chega ao grande clímax esperado.
“Maria Madalena” revela-se uma faixa falada na voz imponente de Katy da Voz e também leva a assinatura de Icona. Funciona como uma ponte poderosa para “Bixa de 7 Cabeças”, criando uma história completa. O coral do refrão é um ponto alto, com arranjos vocais que remetem até ao viral “Mini set das Visitantes”.
Já músicas como “Purgatório” e “A Última Ceia” exploram emoções intensas, quase como se fossem um processo de expurgar sentimentos através da dança e do movimento. Depois desse turbilhão, o disco chega ao desfecho com “Babilônia 2000”.
A faixa final traz referências claras a “mate & morra”, de Linn da Quebrada, e até ao filme Madagascar, dando um toque bem-humorado ao encerramento. Conta ainda com versos de Isma, ex-Irmãs de Pau, e Aurora Abloh.

A conclusão é simples: Icona Fantasy: Manifesto é um álbum de estreia corajoso, bem construído e cheio de personalidade. Cada faixa apresenta detalhes, interpolações e conexões internas que mostram preparo e visão. A estética visual reforça a identidade da obra. Icona Pink demonstra paixão pela música e tem clareza sobre quem quer ser artisticamente. Agora resta acompanhar seus próximos passos para ver como essa história continua.
Ouça “ICONA FANTASY: Manifesto” em todas as plataformas digitais.
