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Colibri fala sobre o fim da trilogia “3R” e o processo criativo nascido em uma casa sem tratamento acústico

Tem banda que pensa em single, a Colibri pensa em trilogia. Com o lançamento de “3R pt. III”, o grupo baiano encerra um projeto que atravessou seis anos da sua história, começou em meio ao isolamento da pandemia e desafia, de ponta a ponta, a lógica das músicas curtas pensadas para algoritmo. A gente conversou com a banda sobre o processo, as referências e o que vem depois de um ciclo tão longo.

Faixas de mais de dez minutos não são acidente

Em um cenário dominado por composições cada vez mais curtas, a Colibri segue na contramão sem nenhum constrangimento. As faixas longas nascem de jam sessions e carregam uma sensação de unidade que, segundo a banda, simplesmente não permite cortes. É o caso de “The Roadhouse”, construída a partir de uma jam de 36 minutos editada em três partes. O processo, contam, é fundamentalmente intuitivo e guiado pela pesquisa, com a banda explorando técnicas de gravação e ambiências reais de salas sem tratamento acústico.

Seis anos de trilogia, uma casa como ponto de partida

A trilogia “3R” nasceu da vontade de desenvolver um processo criativo longo, na contramão dos lançamentos rápidos da indústria atual. A ideia era mostrar a evolução de uma ideia ao longo do tempo, junto com o público, quase como uma franquia de filmes. E há temas que, infelizmente, continuam atuais: o verso de “The Roadhouse pt. III”, escrito em 2023, sobre bilionários explorando a Terra até o ponto de não retorno, ainda ressoa com força hoje.

Boa parte da sonoridade do disco é reflexo direto de onde foi gravado: uma casa sem tratamento acústico profissional. Para a banda, nenhum estúdio convencional traria a mesma inspiração que a arquitetura e o ambiente daquele lugar ofereceram. Mesmo ao gravar outros instrumentos posteriormente em estúdios em Salvador, o som da casa já estava incorporado à memória do grupo, e a missão era amalgamar essas novas sonoridades sem perder a essência original.

De T.S. Eliot a Fallout

As referências da banda atravessam universos bem diferentes entre si. T.S. Eliot chegou através de um livro de poesias lido por um dos integrantes durante a estadia na casa. David Lynch foi introduzido pelo vocalista, que costumava reunir o grupo para assistir aos filmes do diretor ao final das sessões. Já Fallout surgiu depois, quando perceberam a semelhança entre a voz de rádio gravada para a faixa “Cidade Infame” e as transmissões de rádio amador que aparecem no jogo.

O trânsito entre português, inglês e até russo nas letras segue a mesma lógica de liberdade: a banda prefere respeitar a naturalidade da inspiração, venha ela no idioma que vier, entendendo isso como uma forma de se apropriar de territórios simbólicos hegemônicos a favor da própria expressão artística.

Bahia como ponto de partida, não de chegada

Construir uma carreira ambiciosa fora do eixo Rio-São Paulo trouxe desafios conhecidos por quem já passou por isso antes. Mas a banda vê isso como vantagem também: a Bahia e o Nordeste são, segundo eles, um caldeirão de referências que cruzaram oceanos e estradas, e a Colibri se sente herdeira desses horizontes abertos.

Com o fim da trilogia, o grupo já mira o próximo passo: levar esse repertório para os palcos, descobrir as músicas ao vivo e ampliar o alcance através dos shows. E, segundo eles mesmos, já há ideias guardadas no bolso esperando o momento certo de aparecer.

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