Voltar ao Rock in Rio já não é novidade para o Cat Dealers, mas isso não significa repetir o que funcionou no passado. Em entrevista ao Conexão POP, a dupla contou que prepara um show especialmente pensado para a edição de 2026, levando em consideração até mesmo os artistas que estarão nos outros palcos naquele dia.
Com anos de estrada e passagens anteriores pelo festival, os irmãos enxergam o retorno em um momento de maior maturidade artística. A experiência acumulada ajudou não apenas na leitura do público, mas também na maneira de construir cada apresentação. E, quando o assunto é Rock in Rio, a ideia é fazer algo que dificilmente será reproduzido da mesma maneira em outros shows.
O Rock in Rio também chega em um momento importante de uma trajetória que, segundo o Cat Dealers, foi construída principalmente com constância. Mesmo diante das mudanças da música eletrônica e das tendências que surgiram ao longo dos anos, a dupla diz ter encontrado um equilíbrio entre adaptação e identidade própria. Confira a entrevista:
Vocês retornam ao Rock in Rio em outro momento da carreira, com um público maior e uma identidade artística mais consolidada. Como enxergam a evolução desde a primeira participação no festival?
Acho que são duas evoluções. Primeiro, a nossa como artistas e como pessoas, e isso influencia muito todos os shows. A gente toca praticamente todo final de semana e, quanto mais você faz, melhor fica. Você aprende a lidar e a ler melhor a pista.
No Rock in Rio não é diferente. Já tocamos algumas vezes, mas, olhando os números, são cerca de cinco shows. Como o festival acontece a cada dois anos, a gente sempre tenta melhorar muito de uma edição para outra. Olhamos para o último e pensamos no que dá para fazer melhor no próximo.
A gente também vai entendendo melhor o público e o tipo de set que funciona para aquele festival. O próprio dia influencia muito. Um show no dia do Justin Bieber é diferente de tocar no dia do Foo Fighters. Sabemos que teremos pessoas que estão indo assistir ao Foo Fighters e gostam de rock, então vamos fazer algo mais voltado para essa linha.

O Rock in Rio reúne muita gente que talvez nem acompanhe música eletrônica. Como vocês estão construindo esse set para conquistar também quem terá o primeiro contato com o Cat Dealers?
Estamos olhando detalhe por detalhe. Já sabemos mais ou menos quais músicas nossas queremos tocar e somos viciados em fazer versões e misturar músicas. Separamos várias faixas famosas de rock para tentar criar edits e versões exclusivas, misturando com músicas eletrônicas.
Para dar um spoiler, nossa intro normalmente é mais orquestral. Pegamos essa mesma abertura e fizemos uma versão mais rock and roll, com guitarra e elementos clássicos do rock.
Também pensamos nas referências de quem vai estar lá. Quem gosta de Foo Fighters normalmente também pode gostar de Red Hot Chili Peppers, Nirvana ou Bon Jovi. A gente se apoia nisso para criar versões do zero, que ninguém ouviu antes. Talvez algumas delas só sejam tocadas no Rock in Rio.
É um set de uma hora e sabemos que não podemos errar. Queremos energia do início ao fim. É diferente de um clube, onde você toca por mais tempo e consegue subir e descer a energia. No festival, normalmente é energia até o final.
Vocês levaram a música eletrônica brasileira para grandes festivais e palcos internacionais. Qual foi o maior desafio para construir essa trajetória e manter o Cat Dealers relevante durante tantos anos?
Constância. Durante o tempo, a gente oscila de humor, de vibe, de tudo, e com artista não é diferente. É preciso manter a constância nos altos e baixos, porque eles vão existir, seja na carreira ou no psicológico. Acho que fizemos isso muito bem. Não paramos. Uma carreira artística exige que você continue animado com aquilo que está fazendo, porque é uma vida cansativa e que te priva de muita coisa. Depois de dez anos, você começa a perder casamento de amigos e outros momentos porque sua vida é muito louca.
Por isso, você precisa continuar com vontade de fazer aquilo, estar cercado das pessoas certas e seguir algo em que realmente acredita. Às vezes também precisa saber dizer não para aquilo que não está fazendo bem.
O Rock in Rio é um desses momentos que trazem essa animação de volta. A gente está parando para olhar tudo porque quer entregar um show diferente e novo. Já sabemos o que queremos entregar e estamos muito animados com isso.

A música eletrônica está sempre mudando. Como equilibrar a identidade que fez o Cat Dealers crescer com novas tendências e sonoridades?
A música é uma roda e está sempre girando. Às vezes o seu som está em alta, às vezes não, e depois pode voltar. Sempre fomos muito fiéis ao que gostamos sonoramente. Quando nosso som está em alta, seguimos. Quando está em baixa, tentamos adaptar, mas continuamos seguindo aquilo em que acreditamos.
Você precisa seguir a sua verdade e, às vezes, ignorar um pouco o que os outros estão falando. Quando criamos o Cat Dealers, há cerca de dez ou onze anos, tínhamos outro projeto, com uma linha considerada mais comercial. O Cat Dealers era mais underground e trouxemos várias referências do projeto anterior. Muita gente dizia que aquilo não era bom, depois viu funcionar para a gente e começou a fazer também.
Ao mesmo tempo, não dá para ter a cabeça fechada. As coisas mudam e, se você não se adaptar, fica para trás. Só que se adaptar não significa fazer exatamente o que todo mundo está fazendo. É preciso trazer a sua identidade e aquilo que você gosta.
Para fechar, podemos esperar alguma surpresa, colaboração ou momento especial preparado exclusivamente para esse show?
Além das coisas que dependem só da gente, temos ideias bem especiais que não dependem 100% de nós. Não posso falar muito, mas estamos tentando fazer algumas coisas legais. Já fizemos participações em outros Rock in Rio, não exatamente dessa forma, e acredito que pode rolar algo interessante. Do que depende do Cat Dealers, temos músicas que vamos tocar pela primeira vez lá, colaborações, novos remixes e muitos edits que estamos guardando para o festival.
Estou muito animado e meio nervoso também, porque vamos sair da nossa zona de conforto. Uma coisa é tocar algo que você já sabe que funciona. Outra é chegar pela primeira vez e pensar: “Acho que vai funcionar”. É um pouco daquela sensação do início da carreira, da novidade, de testar e ver o que acontece. E, se alguma coisa não funcionar, faz parte. A gente guarda como aprendizado.
