Ao longo dos últimos anos, há um debate contínuo e extremamente necessário sobre estrelas da música pop e imagem corporal.
Em 2020, urante a divulgação do documentário Miss Americana, Taylor Swift revelou a Chris Willman, da Variety, que às vezes “simplesmente parava de comer” e que tinha desenvolvido uma relação “não saudável” com a comida, um padrão que ela caracterizou como uma resposta pavloviana, ou seja, um comportamento condicionado por estímulos repetidos, ao constante feedback de observadores externos sobre o peso do corpo.
Em um diálogo com Charli xcx em um remix de “Girl, so confusing”, de 2024, Lorde canta sobre uma “guerra com [seu] corpo” que envolvia passar fome e depois recuperar o peso, processo que parecia lhe causar tanta dor emocional quanto o primeiro. Ela se aprofundou ainda mais em seu álbum de 2025, Virgin, admitindo ter sido “absorvida” por medições corporais, como uma “nova proporção cintura-quadril”, na música apropriadamente chamada de “Broken Glass”, vidro quebrado, em português.
Para muitos fãs, essas revelações foram bem-vindas.
Assim como Taylor consegue sintetizar experiências universais como perda e desilusão amorosa, ela também consegue dar voz ao que muitas pessoas sentem em um mundo onde os corpos estão constantemente em exibição. As pressões enfrentadas por Lorde, como uma pessoa de visibilidade excepcional, são mais intensas do que o conflito interno de uma pessoa nas redes sociais sobre editar ou não uma foto, mas possuem a mesma natureza. É reconfortante encontrar uma comunidade nessa luta e ouvir que é possível superar essa fase.
A repercussão do caso da Ariana Grande
Agora, Ariana Grande e os milhões de olhares voltados para ela trouxeram à tona essa discussão com força total. No entanto, desta vez, há uma diferença. A artista não se juntou à conversa por vontade própria, mas foi arrastada para ela.
Preocupações com a aparência notavelmente magra de Ariana já vinham surgindo desde suas turnês de divulgação para “Wicked” e a sequência “For Good”, mas o novo álbum Petal, o videoclipe e a turnê “Eternal Sunshine” aumentaram o debate. Os representantes da artista anunciaram no domingo que, após a turnê, ela planeja dar “um passo para trás na visibilidade” em meio a um “escrutínio público contínuo e interminável”. Como parte dessa decisão, Ariana desistiu de estrelar uma nova montagem do musical de Stephen Sondheim, “Sunday in the Park with George”. No entanto, o comunicado não fez menção ao estado físico ou mental da cantora, somente citou “terminar a turnê… de forma saudável e feliz”.
Na segunda-feira (5), Ariana abordou a notícia com suas próprias palavras, embora ainda evitasse detalhes específicos. “O anúncio feito ontem não foi algo reativo ou impulsivo”, disse a cantora, sem citar ao que ela poderia estar reajustando. A “negatividade” citada por seus representantes não a está impedindo de aproveitar este momento de sua carreira, afirmou ela. Contudo, “múltiplas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Sim, limites precisam ser estabelecidos. Seres humanos às vezes precisam de uma pausa.”
O impacto do clipe Petal e as reações nas redes
Desde o lançamento de “Petal”, as redes sociais ficaram cheias de capturas de tela mostrando a caixa torácica visível de Grande e especulações sobre o uso de uma prótese peitoral em uma sequência do vídeo. Assustados, alguns usuários compartilharam closes de um bilhete que dizia em parte: “Não faria mal perder alguns quilos”. Cabe ressaltar que, na narrativa do clipe, esse sentimento não é expresso pela própria Ariana, trata-se de uma observação de um comitê de homens executivos que a declara “não boa o suficiente”. Entretanto, essa discrepância apenas complica ainda mais a situação.
Dirigido por Christian Breslauer, o clipe mostra Ariana Grande rejeitando as expectativas impostas por outras pessoas. Na história, a cantora interpreta uma aspirante a estrela que faz um teste para um grupo de executivos da fictícia agência Fame, Inc. Em vez de avaliarem seu talento, eles fazem críticas à sua aparência. Em um momento, eles escrevem “Deveria fazer alguma intervenção estética”. Logo depois, eles anotam: “Muitas intervenções feitas”, cena que levou fãs a especularem sobre o uso de uma prótese corporal. No fim, a personagem os ataca com uma motosserra e recebe o apoio das outras mulheres que participavam da audição.
O clipe traz uma crítica válida à pressão estética enfrentada por mulheres. Ainda assim, diante da repercussão, chama atenção o contraste entre as imagens e trechos como “Eu não preciso de alguém para me salvar” e “Isto não é um pedido de socorro”. A mensagem pode passar a ideia de que qualquer comentário sobre o corpo de uma mulher é inadequado, independentemente da intenção. Os fãs defendem que não é correto colocar no mesmo grupo críticas maldosas e manifestações de preocupação genuína.
A busca por um meio-termo diante de verdades conflitantes
A conversa sobre o corpo de Ariana Grande na internet tem sido cruel e pouco produtiva. De um lado, há quem a retrate injustamente como alguém que incentiva a anorexia e influencia os fãs a se privarem de comida. Do outro, fãs defendem que ela está mais saudável do que nunca e atacam quem levanta qualquer preocupação. Encontrar um meio-termo entre esses dois extremos é difícil, mas necessário.
Antes de tudo, é preciso reconhecer duas verdades que entram em conflito. Ariana Grande é uma figura pública, e as pessoas têm o direito de comentar seu trabalho e compartilhar preocupações ou experiências, inclusive sobre transtornos alimentares. Ao mesmo tempo, ninguém de fora conhece sua saúde, rotina ou histórico médico. Por isso, fazer diagnósticos pela internet, mesmo com boa intenção, pode ser irresponsável.
Também é verdade que evitar qualquer conversa sobre o corpo de uma pessoa pode deixar de lado questões importantes. Ariana Grande tem uma enorme influência sobre seus fãs, muitos deles jovens, que podem interpretar certas imagens como um padrão a ser seguido em vez de um sinal de alerta. Falar sobre isso não é, necessariamente, um ato de crueldade. Organizações dedicadas à prevenção de transtornos alimentares recomendam que a mídia evite imagens que possam romantizar a magreza extrema. É claro que as redes sociais não seguem as mesmas regras de filmes ou campanhas publicitárias. Ainda assim, a cantora e sua equipe provavelmente sabem que muitos seguidores interpretam suas fotos sob essa perspectiva. Eles não precisam comentar o assunto publicamente, mas dificilmente ignoram esse contexto.
A necessidade de empatia
Por outro lado, mesmo quando alguém precisa de ajuda, essa ajuda só funciona se a própria pessoa estiver disposta a aceitá-la. Se a intenção é que Ariana Grande fique bem, uma onda de pressão e especulação na internet dificilmente contribuirá para isso.
A verdade é que ninguém, além das pessoas próximas à cantora, sabe o suficiente para tirar conclusões sobre sua saúde. O corpo de Ariana mudou, e isso é visível, mas existem muitos motivos que podem explicar essa mudança. Alguns são graves, outros não, e nenhum deles pode ser confirmado apenas por fotos ou comentários nas redes sociais.
Um exemplo parecido aconteceu com Chadwick Boseman. Durante anos, muita gente fez piadas porque ele parecia cansado ao repetir o gesto de “Wakanda Forever” para os fãs. Alguns chegaram até a chamá-lo de ingrato. Somente depois de sua morte o público descobriu que o ator enfrentava um câncer de cólon em segredo. O caso mostrou como é fácil interpretar sinais sem conhecer a realidade.
Isso não significa que Ariana Grande esteja passando pela mesma situação. O exemplo apenas lembra que é perigoso transformar pequenos recortes da vida de alguém em certezas. O universo da música pop realmente pode favorecer transtornos alimentares, como diversos artistas já relataram. Ainda assim, se Ariana Grande estiver enfrentando algo parecido, essa é uma realidade que só ela poderá revelar quando e se quiser.
Até lá, afirmar com certeza que ela tem anorexia ou está em crise não ajuda nem a cantora nem seus fãs. A vergonha raramente leva alguém a buscar tratamento. É possível dizer, com respeito, que algumas imagens chamam atenção e lembram situações que causariam preocupação em qualquer pessoa próxima. Demonstrar essa preocupação e, ao mesmo tempo, evitar conclusões precipitadas é a postura mais empática. Como público, o máximo que podemos fazer é esperar que ela tenha o espaço necessário para cuidar de si, seja qual for sua realidade.
Quase 20 anos depois de Britney Spears raspar a cabeça, muita gente reconhece que a forma como o público tratou o corpo e a saúde mental dela foi um erro. Com Ariana Grande e outras artistas que possam passar por situações parecidas, ainda há tempo de agir de outra forma, com mais cuidado, respeito e empatia, sem fingir saber o que realmente se passa na vida das pessoas.
Este artigo é uma adaptação de Ariana Grande May or May Not Be Struggling. We Can Talk About It Without Trying to Shame Her da Variety.
