Uma investigação do New York Times publicada nesta quarta-feira (5) trouxe à tona os contratos originais assinados pelas integrantes do NewJeans quando tinham entre 14 e 17 anos, revelando cláusulas que especialistas em direito de entretenimento classificaram como excepcionalmente restritivas.
Os documentos obtidos pelo jornal mostram que a Hybe, por meio de sua subsidiária Ador, retirou dos contratos as proteções básicas previstas no modelo do governo sul-coreano, incluindo o direito à saúde física e mental, à educação e ao sono.
As restrições iam além do esperado até para os padrões do K-pop. As artistas eram proibidas de ter “atitude insincera”, entrar em “relacionamentos românticos inapropriados” ou criticar publicamente a gravadora. Uma cláusula chegava a vedar a divulgação de “fatos verdadeiros ou falsos” que pudessem prejudicar a reputação da empresa. “Este contrato é incomumente agressivo. Ele restringe a liberdade das artistas a um grau raramente visto, mesmo em contratos recentes de grandes gravadoras”, afirmou Jong-eon Roh, advogado de entretenimento de Seul que revisou os documentos para o NYT.

O grupo virou notícia mundial em 2024 ao anunciar o rompimento com a Ador após Hanni Pham testemunhar no Parlamento sul-coreano sobre o tratamento recebido. Em março de 2025, a Justiça deu razão à gravadora: o NewJeans não poderia seguir em frente por conta própria. A tentativa de saída expôs as artistas a potenciais processos e multas milionárias, já que as cláusulas de rescisão previam penalidades calculadas sobre a média de faturamento dos dois últimos anos multiplicada pelos meses restantes de contrato, com uma distorção: só eram contados os meses com receita positiva, o que poderia inflar o valor cobrado.
Em dezembro de 2025, a Ador rescindiu o contrato com Danielle Marsh e a processou por cerca de US$ 22 milhões, alegando que ela havia feito projetos solos não autorizados e firmado acordo com terceiros. A defesa de Marsh afirmou que a ação era uma punição pela tentativa de saída coletiva do grupo, e uma mensagem para o setor inteiro: “Se você tentar escapar do controle da Hybe, este é o preço que você vai pagar”, disse o advogado Jung Jong-chae.
O contrato também garantia à Hybe o direito de usar as vozes, rostos e identidades das artistas indefinidamente após o fim do vínculo, inclusive por meio de clones de voz gerados por inteligência artificial, sem que as cantoras tivessem controle sobre o uso. O modelo do governo sul-coreano determina que esses direitos expirem junto com o contrato, mas essa linguagem foi removida dos documentos do NewJeans.
O grupo está sob contrato até 2029 e não se apresenta há mais de um ano. A Hybe afirmou que seus contratos são legais, negociados de boa-fé e dentro dos padrões da indústria, e que a empresa não pressiona artistas a abandonar a escola ou a fazer cirurgias estéticas.









