A Bienal Internacional do Livro de São Paulo encerrou no último domingo (13) com recorde de público. A 28ª edição recebeu 760 mil pessoas ao longo dos dez dias de evento, superando as 722 mil registradas em 2024. Entre os destaques desta edição esteve Paula Pimenta, que lançou, nos últimos meses, A Música da Minha Vida, Vol. 1.
O novo livro faz parte dos universos de Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série e chega quase 20 anos depois do início da saga. A obra acompanha Juju, personagem que já havia aparecido nas histórias anteriores.
novo livro de Paula foi o mais vendido da Editora Gutenberg durante a Bienal, reforçando a boa relação com os seus fieis leitores e a afinidade com os jovens e adolesentes
Em conversa exclusiva com o Conexão Pop, Paula Pimenta falou sobre a criação da nova protagonista, a presença da música na história e a relação com leitores de diferentes gerações.
A nova protagonista
Juju tem 14 anos e é como várias outras meninas da mesma idade: tem amigos que estão sempre ao seu lado, gostaria que a família lhe desse um pouco mais de liberdade e está começando a descobrir que garotos podem ser meio complicados, especialmente quando a gente se apaixona por eles. Mas sua vida nem sempre foi tão cor-de-rosa quanto parece.
Ainda na pré-adolescência, ela descobriu que é preciso escolher bem em quem confiar e que nossas raízes podem conter segredos capazes de mudar, inesperadamente, nossa percepção do mundo. Ao se refugiar na música, acaba percebendo que algumas melodias tristes também têm seu valor e que somos nós os responsáveis pela trilha sonora da nossa história.
No novo livro, a música aparece como um tema central para a personagem e um dos principais elementos da narrativa. A ideia, segundo Paula, já vinha sendo construída há anos. Juju havia aparecido no final de Fazendo Meu Filme 4, usando fones de ouvido durante o casamento do tio.
“Eu falo que eu tenho quatro paixões: filmes, séries, leitura e música. No final do Fazendo Meu Filme 4, eu falei: ‘Ah, eu vou fazer duas protagonistas, uma que ama música e uma que ama livros’. […] Eu já dei a entender que seria a Juju, porque ela já aparece ali com fone de ouvido, em pleno casamento do tio, nada interessada no casamento, com as músicas dela. Então, foi desde aí. Eu estava esperando um momento”, contou.
Para escrever a nova história, Paula reuniu músicas de diferentes épocas e estilos, escolhendo canções que tivessem relação com o que Juju está vivendo em cada momento do livro.
“Eu fui em busca de várias músicas. Tentei dosar um pouco novas com as antigas, mas todas que eu gosto mesmo. E está bem eclético. A Juju fala disso no livro. Tem um momento em que perguntam para ela: ‘Que tipo de música você gosta?’. Ela fala: ‘Eu gosto de todos os estilos’”, revelou.
A relação da autora com a música também ajudou na construção da personagem. Paula conta que resgatou lembranças da própria adolescência, quando começou a se interessar pelo tema e a tocar violão. Entre suas referências está Taylor Swift, sua cantora internacional favorita.
A escolha, porém, não é apenas uma estratégia para se aproximar do público jovem. “Eu não conseguiria colocar no meu livro algo que eu não gostasse.”
Os mesmos problemas
Apesar dos quase 20 anos que separam o início da saga da nova história, Paula acredita que algumas questões da adolescência continuam muito presentes.
Ao falar sobre a identificação entre diferentes gerações, a autora explica que, quando escreveu o livro, imaginava atingir principalmente pessoas que viveram a adolescência na mesma época que ela. O resultado, no entanto, foi diferente: Paula percebeu que os conflitos emocionais da personagem também dialogam com os jovens de hoje.
“Muda a moda, muda a trilha sonora, mas os sentimentos e o que todo mundo passa são os mesmos.”
Para ela, uma das principais diferenças está na presença das redes sociais. Antes, as situações de bullying ficavam restritas à escola. Agora, podem permanecer por mais tempo.
“Antigamente, acontecia uma coisa ali, por exemplo, um bullying, naquela sala, naquele colégio, e pronto, ficava ali. Hoje em dia não. Vai para a rede social. O negócio te segue”, analisa Paula.
Presente no dia a dia de muitos adolescentes, o bullying também é uma parte central da história de Juju. “Eu falo que ela levou martelada atrás de martelada, e isso fez com que ela se fechasse para não se machucar mais.”
Ao longo da história, Juju começa a mudar depois de conhecer novas pessoas e encontrar espaço para se abrir novamente. Para Paula, esse passado também diferencia a personagem de Fani e Priscila, protagonistas de Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série.
“As outras tiveram uma adolescência mais fácil do que a Juju. O princípio da adolescência para ela não foi nada fácil. […] O bullying da Juju, as coisas que ela passou ali, são mais fortes.”
Diferentes gerações
A Bienal também proporcionou a Paula mais um encontro com leitores que acompanham sua carreira há anos. A autora conta que mantém uma relação próxima com o público, principalmente por meio das redes sociais, onde recebe até sugestões de filmes e músicas para seus próximos livros.
O que mais chama sua atenção, porém, é a mistura de gerações nas filas de autógrafos. Há leitoras que cresceram acompanhando seus personagens e adolescentes que estão descobrindo sua obra agora.
“Eu tenho leitoras que cresceram junto com os meus personagens, mas também tenho os novos leitores. Então, hoje em dia, minhas filas de autógrafos têm todas as idades. É muito bom saber que eu continuo estimulando esse gosto pela literatura.”
Segundo Paula, essa renovação muitas vezes acontece dentro das próprias famílias, quando uma leitora apresenta seus livros para uma irmã, sobrinha ou amiga. Para ela, continuar despertando o interesse pela literatura é uma das partes mais importantes de sua relação com o público.
Paula aposta nos novos leitores
O otimismo da autora aparece também quando o assunto é o futuro da leitura no Brasil. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.
O levantamento mostrou, pela primeira vez, uma proporção maior de não leitores: 53% dos entrevistados não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.
Para Paula, a concorrência com o ambiente digital é uma realidade, mas não significa que os livros tenham perdido espaço. O desafio, segundo ela, é fazer com que crianças e adolescentes encontrem histórias que sejam interessantes.
“Eu acho que lê, sim, os adolescentes leem muito, sim, mas eles precisam encontrar aquele tipo de leitura que eles gostam. O adolescente que não lê é porque ele ainda não descobriu o tipo de leitura que ele gosta”, avaliou.
A escritora também acredita no poder da indicação entre os próprios jovens. Um leitor apresenta uma história a um amigo, que pode fazer o mesmo com outras pessoas, criando um efeito multiplicador. “Um adolescente que lê, ele passa aquele gosto para mais três.”
