Veterana das Bienais do Livro e uma espécie de conselheira para pré-adolescentes e adolescentes, Thalita Rebouças construiu uma carreira marcada pela proximidade com o público jovem. Há mais de 26 anos, a escritora transforma sentimentos, conflitos e descobertas da adolescência em histórias que atravessam gerações.
Autora de obras como a série Fala Sério!, Tudo por um Pop Star e Natali e sua vontade idiota de agradar todo mundo, Thalita chega a 2026 com novos projetos: o filme Era Uma Vez Minha Primeira Vez, adaptação do livro homônimo, e o infantil Diário de uma garota esquisita.
Durante a Bienal do Livro de São Paulo, a escritora e jornalista conversou com exclusividade com o Conexão Pop sobre sua trajetória, a relação com os leitores e o papel das redes sociais na aproximação de novos públicos com a literatura, especialmente por meio de comunidades como BookTok, BookTube e Bookstagram.
A 28ª edição da Bienal do Livro foi inspirada pelo conceito “Um Festival de Emoções”. O evento reuniu 269 expositores e quebrou um recorde de visitantes. Foram 760 mil pessoas nos 10 dias de evento, superando as 722 mil que participaram em 2024.
O número de leitores no Brasil
A movimentação nas Bienais contrasta com um cenário nacional ainda marcado por desafios para o hábito da leitura. Ao mesmo tempo em que eventos literários atraem multidões, pesquisas recentes apontam um quadro mais complexo.
O levantamento Panorama do Consumo de Livros, iniciativa da Câmara Brasileira do Livro (CBL), realizado pela Nielsen BookData e divulgado em março deste ano, mostrou que o consumo de livros cresceu no Brasil em 2025.
Segundo a pesquisa, 18% da população com 18 anos ou mais adquiriu ao menos um livro nos 12 meses anteriores, um crescimento de 2% em relação a 2024. Entre os públicos mais jovens, as faixas de 18 a 34 anos avançaram, juntas, 3,4% em comparação com o ano anterior.
As comunidades virtuais apareceram como um dos elementos associados a esse movimento, principalmente como porta de entrada para novos leitores.
Os dados, porém, precisam ser analisados ao lado de outro indicador. Se o consumo de livros apresenta sinais de crescimento em determinados grupos, o número geral de leitores brasileiros caiu nos últimos anos.
O Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, divulgada em 2024 e que compara os resultados com a edição de 2019. O estudo considera leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital. Segundo a publicação, o país contava com 93,4 milhões de leitores em 2024.
Além disso, pela primeira vez, a proporção de não leitores foi maior do que a de leitores: 53% dos entrevistados não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.
É diante desse cenário, com sinais de crescimento no consumo e maior presença dos jovens nas comunidades literárias, mas também com uma redução no número total de leitores, que Thalita prefere confiar no que vê durante os eventos.
“Eu prefiro acreditar no que os meus olhos veem, que é corredores lotados de gente ávida por livro, por conhecer os seus autores preferidos. Então, eu quero acreditar que as pessoas estão lendo mais, principalmente adolescentes”, afirmou a escritora.
Uma relação construída com os jovens
A percepção de Thalita está diretamente ligada à maneira como construiu sua carreira. Para a escritora, os próprios leitores ajudam a apontar os assuntos que querem encontrar em suas histórias.
“Eles me falam o que é que eles querem ouvir, o que é que eles querem ler. Então, é muito bacana o meu contato com eles. Eu nunca olhei para eles como criança, então, é muito fácil falar com eles, porque eu lembro como era difícil ser adolescente. Eu acho que os adultos esquecem. Então, eu não esqueci”, contou.
Essa identificação ajuda a explicar a permanência de suas obras entre diferentes gerações. Ao abordar sentimentos, conflitos e situações comuns da adolescência, seus livros criam espaços de reconhecimento para quem passa por essa fase.
Para Thalita, a literatura pode ir além do entretenimento e ajudar os adolescentes a compreender melhor a si mesmos e as relações que constroem, especialmente com os pais e professores.
A autora acredita que tratar esse público com respeito e empatia é fundamental. O resultado dessa relação, construída ao longo de mais de duas décadas, já ultrapassa gerações.
“Eu cheguei num lugar na minha carreira que eu estou sendo passada de mãe para filha já. Tem mãe de 40 que me lia com 15 e tá com a filha de 10, sabe? Então, é muito bonito, assim. É realmente muito emocionante. Eu nunca achei que fosse durar tanto tempo”, contou.
A longevidade também está relacionada à capacidade de suas histórias chegarem a novos públicos por diferentes formatos. Se as redes sociais funcionam como porta de entrada para os livros, o cinema também ganha outros públicos.
“O cinema traz muitos leitores novos também. Quem vai ver um filme meu acaba se interessando pelo livro”, concluiu.
Sucesso além dos livros
Essa relação com o público jovem chega novamente às telonas. No dia 17 de setembro, Era Uma Vez Minha Primeira Vez, mais uma adaptação de uma obra da escritora, chega aos cinemas brasileiros.
O filme leva para as telas emoções, sentimentos, medos e anseios vividos pelas personagens durante a adolescência. A produção aborda descobertas e inseguranças dessa fase da vida e, para Thalita, também abre espaço para discutir amizade e identificação.
“O livro é um filme que fala de sexo sem falar sobre sexo. Na verdade, a grande protagonista dessa história é a amizade, a força da amizade feminina. É uma história que eu quero que as meninas leiam e saiam, ou vejam e saiam do cinema, se amando mais, sendo menos cruéis com elas, porque adolescente se cobra, adolescente se julga, adolescente se compara”, afirmou.
A escritora também considera importante que os meninos assistam à produção para compreenderem as experiências vividas pelas personagens. “Eu tenho certeza que quem for vai rir, talvez dê uma choradinha e vai se identificar”, completou.
O filme é estrelado por Castorine, Duda Matte, Letícia Braga e Lívia Silva. O elenco também conta com Cauã Martins, Caian Zattar, Cintia Rosa, Pedro Ogata, JP Rufino e Duda Pimenta. A direção é de Claudia Castro, e o roteiro é assinado por Thalita Rebouças em parceria com João Paulo Hort.
