Adéla chegou ao seu primeiro álbum cercada de expectativas. Depois de apresentar, em “The Provocateur”, uma artista ousada, excêntrica e aparentemente disposta a construir uma identidade própria, “Prima” tinha tudo para consolidar essa impressão.
A excentricidade que fazia do EP uma estreia tão interessante praticamente desaparece. Em seu lugar, surge uma produção que transita entre pop, eletropop e trap, mas raramente consegue transformar essas referências em algo genuinamente Adéla. É uma regressão perceptível em relação ao trabalho anterior: onde havia confiança, agora existe uma artista ainda tentando descobrir qual versão de si mesma quer apresentar.
E isso é especialmente curioso porque “Prima” parece saber exatamente o que quer dizer. O disco fala de sexo, relacionamentos, poder, feminilidade e da construção de uma persona pop. O problema não está necessariamente nas ideias, mas na forma como elas são apresentadas.
Quando Adéla finalmente aparece
Os melhores momentos do álbum são justamente aqueles em que a cantora abandona a tentativa de parecer todas as referências ao mesmo tempo e assume uma personalidade mais clara.
“Boys” é o maior exemplo. A faixa entrega a artista pop que havia sido prometida, com uma sonoridade que remete ao pop sensual de Britney Spears em “In the Zone”. É uma música que entende perfeitamente a persona que quer construir e, por isso, soa muito mais natural dentro do universo de Adéla.
“KGB” também funciona como uma espécie de porta de entrada para o álbum que gostaríamos de ter ouvido. É um hino eletropop, com referências que passam por Lady Gaga, Britney Spears e nomes mais contemporâneos do pop alternativo. A letra, centrada na figura de uma popstar, conversa diretamente com uma estética que parecia faltar no cenário atual. Não por acaso, é uma das faixas que mais lembra “The Provocateur” e a confiança daquele primeiro trabalho.
“Starving Artist” também encontra uma proposta própria e mostra Adéla mais confortável dentro do personagem que construiu. Já “Ain’t It LA” aparece como um dos grandes momentos do projeto e tem potencial de clássico instantâneo, justamente por conseguir transformar a proposta pop em algo mais memorável.
“PRIMA” peca na falta de identidade
“Prima” não é um álbum ruim. Pelo contrário: há boas músicas, ideias interessantes e uma artista com potencial evidente. O problema é que seu primeiro álbum deveria ser justamente o momento de deixar uma marca.


A expectativa mais básica para uma estreia pop é que ela apresente um caminho próprio. “Prima” parece fazer o contrário: tenta capturar todas as tendências atuais de uma só vez. Adéla tem uma boa personagem pop, sabe escrever sobre sexo e relacionamentos com alguma personalidade e demonstra entender o imaginário que deseja ocupar.
“The Provocateur” era ousado e confiante. “Prima” é mais polido, mas também mais inseguro. A sensação é de que Adéla trocou a excentricidade que poderia diferenciá-la pela segurança de fórmulas já conhecidas.
Ainda assim, seria injusto ignorar o potencial existente aqui. Quando “Prima” encontra seu tom, como em “Boys”, “KGB”, “Starving Artist” e “Ain’t It LA”, fica claro que existe uma artista pop muito interessante tentando sair de dentro desse álbum.
“Prima” é, no fim, um álbum de uma artista que parece saber exatamente onde quer chegar, mas ainda está procurando o caminho para chegar lá. E talvez essa seja a parte mais frustrante do disco: a sensação de que a melhor versão de Adéla ainda está escondida em algum lugar entre as 11 faixas.
Nota: 3/5 ★★★☆☆
