Vestimos avatares tão precisos que, pouco a pouco, passamos a caber neles melhor do que em nossa própria pele. Eles deixaram de ser apenas representações e se tornaram portadores daquilo que reconhecemos como nosso: a música que nos atravessa, os traços que nos emocionam, as imagens que se gravam. Nesse processo, essa identidade projetada também começa a nos moldar. O algoritmo aprende nossos desejos, identifica nossos padrões e parece saber o que queremos antes mesmo de encontrarmos palavras para dizê-lo. Afinal, como permanecer humano quando nossa versão digital parece mais viva do que nós?
É diante desse dilema que a obra de Brittney Denise Parks — mundialmente conhecida como Sudan Archives — se ergue como uma resposta. Sua saída não foi a fuga, mas a arte de habitar a tecnologia sem se dissolver nela. “Para viver na Terra hoje, você precisa saber usar as engrenagens e ser bom com computadores, porque o mundo está se tornando tão dependente disso, e sempre foi assim.” Ao manejar as máquinas como ninguém mais saberia, preserva aquilo que a torna mais autêntica.
Lançado em outubro de 2025, The BPM é o terceiro álbum da artista — e o mais ambicioso de sua carreira. Depois do aclamado Natural Brown Prom Queen (2022), ela mergulha de vez na cena eletrônica, transitando pelo house, techno e hip-hop, enquanto consolida a persona “Gadget Girl”: um lado cibernético de si fascinado pela inovação e pela possibilidade de criar sem amarras.
“Com a IA, podemos nos perder dentro da tecnologia. Hoje em dia, até vemos robôs fazendo música, mas o que mantém tudo especial é o aspecto humano”, reconhece. A partir dessa dualidade, o projeto extrai sua força: do encontro entre o corpo que sente e o tecnológico que responde. Uma coreografia entre diferentes facetas, que se observam e se transformam.
Nascida em Cincinnati, Ohio, Parks começou sua trajetória com o violino ainda criança, aprendendo sobretudo de ouvido e sob a influência dos fiddles e das tradições irlandesas. Foi ao pesquisar na internet diferentes maneiras de tocar que encontrou violinistas sudaneses e outras matrizes musicais africanas, ampliando sua percepção sobre as possibilidades do instrumento. A descoberta não apenas expandiu seu vocabulário, mas também a levou a investigar a ancestralidade do artefato e a recuperar seu caráter festivo. Em contraste com a rigidez da prática clássica ocidental, essa nova perspectiva a aproximou de músicos que se expressavam com liberdade, em forte conexão com a dança.
Ao longo de sua discografia, Sudan se permite ocupar lugares emocionais distintos: Athena (2019) expõe a vulnerabilidade; Natural Brown Prom Queen, a maturidade; e THE BPM, a audácia. Cada trabalho corresponde a uma fase real, não a uma trama sobre uma personagem fictícia. “Tenho todas essas personalidades e consigo canalizar essas versões dramáticas quando estou fazendo diferentes álbuns.”
Essa metamorfose também se revela na forma como se relaciona com o palco: “Estou definitivamente mais ousada e honesta. Quando eu era mais nova, a timidez falava mais alto. E, mesmo Athena sendo meu favorito, foi provavelmente o que eu mais tive medo de performar ao vivo. Agora, me sinto muito mais confortável.”
Em suas mãos, o arco deixa de ser apenas herança para se tornar uma linguagem pulsante, capaz de conectar passado e presente enquanto abre espaço para aquilo que ainda está por vir. “Sinto que sou eu mesma, só que muito mais rápida e amplificada do que normalmente seria. Não me parece uma versão diferente de mim, e sim mais avançada porque os gadgets tornam tudo mais fácil. Posso dançar melhor, sem fios presos ao microfone ou ao violino, tudo flui com muito mais naturalidade, não estou presa a nada. Estou livre.”
O movimento é expressão de sua liberdade. E o Brasil — com sua raiz rítmica, onde a batida conduz e o tambor assume o protagonismo — sempre esteve conectado à frequência natural de sua arte. Talvez por isso, sua estreia em São Paulo, no fim de setembro, carregue um significado que vai além da própria performance. Nos dias 27 e 28, Archives chega ao Balaclava Fest e ao Cine Joia, despertando uma expectativa contagiante: “Sempre foi um dos lugares que eu mais quis conhecer, mesmo sem nunca ter estado aí. Não sei por que ainda não consegui ir, quando tive a oportunidade, fiz questão. Ouvi dizer que tenho fãs brasileiros e eu realmente quero vê-los.”
Sintonias como essa também se manifestam em admirações concretas, como as que nutre por Liniker e Afreekassia. A história com a primeira começou em Austin, no Texas, quando a ícone por trás de “Caju” foi ao seu show e, ao vê-la em ação, enviou uma mensagem generosa pelo Instagram. Brittney guarda esse afeto até hoje: “Isso já faz uns anos. Desde então, venho acompanhando ela, vendo ela estourar, e é tão legal ver tudo o que está fazendo. Quero muito colaborar com ela.” De margens distintas, as duas encontram na música uma forma de recusar caixas e descobrir beleza justamente onde a tradição vê contradição.
Para a capital paulista, Sudan Archives reservou algumas surpresas. Depois de tantas apresentações vestindo macacões justos, desta vez, ela surgirá com um conjunto de duas peças e, principalmente, estará descalça.“ Tem pequenas coisas que quero fazer. Definitivamente fiz uma roupa específica.” Estar sem sapatos em solo tropical é estabelecer uma conexão literal com o chão de um país onde a música emerge dos pés, dos quadris, da bacia. E essa aproximação não ficará restrita ao visual, ela pretende levar elementos da sonoridade brasileira para a apresentação: “Quero realçar a batida forte e os graves. Basicamente, você pode preparar seu show e escolher determinadas partes do instrumental para colocar em evidência. Quero destacar essas partes porque foi daí que vieram muitas das minhas influências inconscientes.”
O olhar atento ao espetáculo não é apenas um detalhe. Pela primeira vez em sua carreira, a performance já estava dentro do estúdio. “Nunca fiz músicas pensando em como iria apresentá-las, sempre fazia a música e depois descobria como levá-la ao vivo. Mas, para este álbum, eu sentava para gravar e pensava: Quais elementos musicais posso destacar mais? Pois vou estar sozinha no palco.”
A mudança também nasceu de uma inquietação diante do público: Parks estava cansada de vê-lo parado, mais focado em observá-la do que se divertir. THE BPM surge, em parte, como uma resposta a esse incômodo, com um repertório pensado para provocar movimento e fazer do corpo parte da experiência.
Assumir a produção executiva foi outro passo nessa nova direção, especialmente ao reconhecer o seu timbre como uma forma de autoridade. “Isso me deu mais confiança para dizer não. Quando você é produtora executiva, tem a palavra final nas decisões criativas. Antes, era difícil para mim dizer não porque me importava com o que os outros pensavam. Agora, com mais experiência, tenho confiança para falar: ‘Não gosto disso. Tira. Coloca aquilo.’”
Entre máquinas, ritmos e personagens, ser uma Gadget Girl é a prova de que, mesmo no coração do eletrônico, o que vibra é o humano. A tecnologia não diminui essa presença: dá a ela novas formas de existir, expandindo a criatividade para além dos seus próprios limites. Afinal, “Nunca foi sobre o robô, sempre foi sobre o criador.”
SERVIÇO
Balaclava Records apresenta: Show Solo de Sudan Archives em São Paulo
Data: 28 de Setembro de 2026, segunda-feira
Local: Cine Joia – Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade
Horários: Portas 20h / Show 21h30
Classificação etária: 16+ / menores de 16 anos acompanhados dos pais ou responsável legal
Ingressos: https://ingresse.com/sudanarchives-sp/
*Por Luana Murakami





