Ivete Sangalo voltou a São Paulo neste sábado (22) com “Clareou”, mas a segunda passagem do projeto pela capital paulista também reforçou uma escolha importante dentro dos mais de 30 anos de carreira da cantora. Depois de construir uma das maiores trajetórias da música brasileira a partir da Bahia e se transformar em um dos principais nomes do axé, Ivete colocou sua dimensão popular a serviço de um projeto inteiramente dedicado ao samba, às próprias raízes e à memória de artistas que ajudaram a construir o gênero.
No Centro Esportivo Tietê, a cantora apresentou novamente o espetáculo em formato 360º e recebeu Alexandre Pires, Netinho de Paula, Arlindinho e Bruno Diégues. A noite marcou a retomada da turnê depois da pausa realizada durante o período da Copa do Mundo e aconteceu justamente na cidade escolhida para receber a estreia do projeto, em outubro de 2025.
Mais do que uma mudança de repertório dentro da carreira de Ivete, “Clareou” nasceu de uma relação que antecede sua trajetória profissional. O samba estava presente dentro de casa por influência dos pais e irmãos da cantora, entre discos, percussão, choro, bossa nova e diferentes vertentes da música brasileira.

Essa memória encontra principalmente uma mulher: Clara Nunes.
Quando tinha apenas três anos, Ivete aprendeu a cantar inteira “Conto de Areia”, eternizada na voz de Clara. A cantora ainda trocava algumas palavras da composição quando criança e acabou recebendo da família o apelido de “Veveta Marechera”. Décadas depois, aquela referência da infância se tornou a base para um projeto de grandes proporções.
Durante a apresentação deste sábado, Ivete colocou essa ligação no centro do espetáculo ao interromper o repertório para falar sobre a importância de Clara Nunes em sua formação.
“Eu trago esse nome ‘Ivete Clareou’ em homenagem a essa mulher, essa artista, essa cantora que transformou a minha vida e a de tantos brasileiros, mas acima de tudo ela transformou muitas vidas através da emoção, de sua postura de existir como uma mulher muito potente, linda e poderosa”, afirmou.
A homenagem ganha outra dimensão quando parte de uma artista que passou décadas ocupando alguns dos maiores espaços da indústria musical brasileira. Ivete não utiliza “Clareou” somente para experimentar outro gênero musical. O projeto transforma uma referência feminina de sua infância em eixo de um espetáculo de grande porte, apresentado para milhares de pessoas e construído para circular por diferentes cidades do Brasil e, agora, também internacionalmente.
Essa relação com Clara aparece desde o próprio título. “Clareou”, composição de Rodrigo Leite e Serginho Meriti, ganhou diferentes interpretações ao longo dos anos, enquanto o projeto de Ivete transforma o nome em uma referência direta à cantora mineira. No repertório também aparecem “Juízo Final” e “Canto das Três Raças”, duas músicas profundamente associadas à voz de Clara Nunes.
Antes de chegar aos grandes palcos, o conceito foi registrado de maneira mais próxima das origens do gênero. O audiovisual de “Ivete Clareou” foi gravado em agosto de 2025, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, com a montagem de uma grande roda de samba. Belo, Jorge Aragão, Péricles, Dilsinho, Maria Rita e Arlindinho estiveram entre os convidados daquele registro.

O repertório também ajuda a dimensionar a pesquisa realizada para o projeto. Ivete reuniu músicas como “Juízo Final”, “Canto das Três Raças”, “Retalhos de Cetim”, “O Bem” e “O Mar Serenou”, além de incorporar composições inéditas como “Nem Precisa Responder”, “Vai Tomando”, “Por Inteiro” e “Mó Loucura”.
No palco em São Paulo, essa proposta apareceu desde os primeiros minutos. Ivete abriu a apresentação com “Marechera” e “Água de Chuva no Mar”, antes de percorrer diferentes momentos do samba. “O Bem”, “Retalhos de Cetim” e “Trilha do Amor” dividiram o espetáculo com músicas de sua própria carreira, entre elas “Flor do Reggae”, “Não Precisa Mudar” e “Me Abraça”.
A presença dessas canções também mostra que “Clareou” não funciona como uma ruptura com a Ivete construída nas últimas três décadas. O samba é incorporado à trajetória da cantora enquanto músicas associadas ao axé, ao pop e à música baiana encontram novas possibilidades dentro do espetáculo.
Ao falar sobre a criação do projeto anteriormente, Ivete já havia explicado que desejava gravar um trabalho dedicado ao samba há anos. A cantora também definiu Clara Nunes como sua primeira grande referência vocal e afirmou que o gênero esteve presente em diferentes níveis durante toda a sua carreira.
Há ainda um peso simbólico em uma mulher ocupar o centro de um projeto dessa dimensão para homenagear outra mulher que ajudou a transformar a história do samba brasileiro. Clara Nunes construiu uma obra profundamente relacionada às matrizes afro-brasileiras, à religiosidade, à ancestralidade e ao próprio desenvolvimento do samba como manifestação cultural popular. Em “Clareou”, Ivete não tenta ocupar esse lugar histórico, mas utiliza sua própria posição dentro da indústria para manter esse repertório circulando diante de uma nova geração.
Ao mesmo tempo, a cantora não abandona a música contemporânea. O álbum combina clássicos com material inédito e participações de artistas de diferentes gerações, transformando a homenagem em um projeto que também procura produzir novas músicas dentro do gênero. Ivete já definiu “Clareou” como um encontro que celebra a memória do samba enquanto contribui para sua continuidade.
Em São Paulo, essa proposta ganhou ainda a participação de Arlindinho, que já havia colaborado no audiovisual, além de Alexandre Pires, Netinho de Paula e Bruno Diégues. Na plateia, nomes como Astrid Fontenelle, Mauro Sousa, Rafa Brites, Felipe Andreoli, Nicole Bahls e Beatriz Reis acompanharam a apresentação.
“São Paulo tem uma energia muito especial e voltar para essa cidade com o ‘Ivete Clareou’ é uma alegria enorme. Foi aqui que a gente estreou essa turnê e agora poder retornar, depois dessa pausa, tem um significado ainda mais especial”, afirmou Ivete antes do show.
Agora, o projeto se prepara para atravessar o Atlântico. Depois da apresentação paulistana, “Clareou” terá sua estreia internacional em Portugal, no dia 5 de setembro, antes de retornar ao Brasil.
A agenda segue por Belo Horizonte, em 19 de setembro, Fortaleza, em 10 de outubro, Salvador, em 14 de novembro, Ribeirão Preto, em 28 de novembro, e Campinas, em 12 de dezembro, encerrando a temporada de 2026.
A expansão internacional adiciona mais um capítulo ao caminho iniciado com uma memória familiar de Ivete ainda aos três anos. Da menina que aprendeu “Conto de Areia” ouvindo Clara Nunes à mulher que construiu uma das maiores carreiras da música brasileira, “Clareou” transforma essa influência em um projeto capaz de colocar o samba, sua história e a força de suas intérpretes diante de grandes públicos.
